Re‑ler Sartre: O Existencialismo é um Humanismo e a Urgência da Liberdade

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Skye C Cleary, 2 de Julho de 2026
Link para o Artigo original: [Aeon]
23 minutos


No dia 29 de Outubro de 1945, o filósofo Jean-Paul Sartre emergiu sozinho do Metro de Paris. Ia proferir uma conferência intitulada «L’existentialisme est un humanisme» («O Existencialismo é um Humanismo») no Club Maintenant. Ninguém fazia ideia de que se tornaria uma das conferências mais famosas do século XX. Ao caminhar em direção ao local, Sartre viu uma enorme multidão reunida lá fora. Perguntou-se se seriam comunistas a protestar contra si e se não deveria voltar para casa. Avançou — sobretudo porque já tinha assumido um compromisso profissional.

Enquanto a multidão se afastava para dar passagem a celebridades, ninguém sabia que aspeto tinha Sartre. Ele não disse a ninguém quem era e, à medida que se ia esgueirando em direção à frente, era empurrado por violentos encontrões para conseguir lugar. A sala estava sobreaquecida e superlotada. Quinze pessoas desmaiaram. Com uma hora de atraso, Sartre subiu ao palco para defender a filosofia existencialista contra os seus críticos e argumentar que o existencialismo é um humanismo. Não tinha notas, as mãos permaneceram nos bolsos, mas estava bem preparado. Disse o que tinha a dizer e foi-se embora.

Os anfitriões da conferência de Sartre, Jacques Calmy e Marc Beigbeder, tinham um orçamento modesto. Compraram anúncios simples nos jornais. As suas esposas colocaram panfletos nas livrarias do Bairro Latino. Calmy preocupava-se: «Com um título daqueles! Existencialismo!» Apenas dois meses antes, Sartre declarara publicamente: «A minha filosofia é uma filosofia da existência; nem sequer sei o que é o Existencialismo.» (Ainda assim, Simone de Beauvoir escreve na sua autobiografia: «No fim, adoptámos o epíteto que toda a gente nos atribuía [existencialismo] e usámo-lo para os nossos próprios fins.») Juntamente com as recentes acusações de que o romance Nausea (1938) de Sartre era anti-humanista, esperavam que o título pudesse ser, pelo menos, uma «provocação paradoxal».

Na manhã seguinte à conferência, Sartre encontrou-se com Beigbeder no seu escritório não oficial, o Café de Flore. Beigbeder desculpou-se pelo caos e explicou que, entre a publicidade, o aluguer do espaço e os estragos no clube — incluindo 30 cadeiras partidas e uma bilheteira destruída, o que significava que não tinham conseguido vender bilhetes — estavam com dificuldades em pagar o honorário prometido a Sartre. Sartre tinha lido os jornais da manhã enquanto tomava café e croissants e interrompeu: «Quanto ao meu pagamento, esqueça! Além disso, parece que tivemos sucesso!»

Uma manchete dizia: «Demasiadas Pessoas na Conferência de Sartre. Calor, Desmaios, Polícia. Lawrence da Arábia é Existencialista.» Os jornais noticiaram «lutas de cotovelos», «angústia não-existencial» e «uma situação de No Exit» em que a multidão temia «morrer sufocada». Os críticos acusaram Sartre de ser «demasiado académico», mas ele era carismático. A sua «postura», a sua «coragem», a sua «garra» e a força da sua presença eram impressionantes.

No Outono de 1945, as atrocidades da Segunda Guerra Mundial tinham sido expostas: as câmaras de gás, os campos, as traições entre amigos e as avalanches de males banais. Beauvoir, a companheira de toda a vida de Sartre, escreveu que as pessoas «tinham descoberto a História na sua forma mais terrível.» Sartre era popular porque, segundo Beauvoir, «existia, pelo menos à primeira vista, uma concordância notável entre o que ele oferecia ao público e o que o público queria.» Na Paris do pós-libertação, as pessoas perceberam que precisavam de reconstruir tanto os edifícios como os alicerces morais.

Sartre desafiou a ideia de que a única resposta viável à Segunda Guerra Mundial era o niilismo

A conferência de Sartre teve tanto sucesso que a editora quis publicá-la para quem não tinha conseguido assistir. Tornou-se viral a nível internacional. «E isso incomodou-me», disse Sartre numa entrevista quase 30 anos depois, reconhecendo a contradição: «Se considerei o que disse significativo para 500 ou 1.000 pessoas, porque não haveria de considerá-lo igualmente significativo para todas as pessoas que o queriam comprar?» Disse que ainda estava a trabalhar o lado moral do existencialismo e que as ideias não estavam tão claras ou acabadas como gostaria. Além disso, a conferência tendia a ser lida como um substituto do trabalho mais difícil de O Ser e o Nada (1943), reduzindo o seu pensamento a citações soltas.

Embora a conferência tenha sido apresentada como uma defesa da filosofia existencialista, foi, na verdade, muito mais do que isso. «O Existencialismo é um Humanismo» foi uma tentativa sincera de abordar a origem dos nossos valores. Sartre estava a desafiar, a sério, a ideia de que a única resposta viável à Segunda Guerra Mundial era o niilismo. Tentava construir uma moralidade que evitasse a mentalidade do «vale tudo». Segundo Beauvoir: «[O Existencialismo] parecia oferecer a solução com que sonhavam. Na verdade, não oferecia.» Embora as pessoas estivessem ávidas de orientação e Sartre se colocasse como um guru a dizer-lhes como deviam viver, paradoxalmente, ele estava prestes a dizer-lhes que se orientassem a si mesmas.

O propósito oficial da conferência era promover a «discussão literária e intelectual», mas Sartre preocupava-se com o facto de os meios de comunicação estarem a distorcer as suas ideias e a alimentar a sua notoriedade. Também combatia os comunistas, que o culpavam pela desconfiança dos jovens em relação a eles, os cristãos, que se opunham ao seu ateísmo, e aqueles que achavam que os existencialistas eram pessoas que praguejavam muito. Sartre sentia a sua imagem pública a escapar-lhe — uma angústia moderna e familiar de ver uma versão de nós próprios a circular pelo mundo, distorcida e inalcançável. Queria retomar o controlo e ser melhor compreendido.

Como Sartre observa na discussão pós-conferência, não queria «apenas impor [a sua filosofia] aos outros em livros» e sentia «a obrigação de a tornar compreensível para aqueles que a discutem num plano político ou moral.» A conferência pode ser descartada como «Sartre arrependeu-se, portanto vamos ignorá-la», mas a verdade é que Sartre tinha sentimentos ambivalentes em relação a ela.

A paixão com que Sartre comunicava as suas ideias — especialmente perante uma audiência ao vivo, especialmente depois de dizer que «[o existencialismo] é estritamente destinado a especialistas e filósofos» e depois apresentar ideias que eram simultaneamente eruditas e acessíveis, e vastamente mais compreensíveis do que a sua notoriamente difícil O Ser e o Nada — fez com que «O Existencialismo é um Humanismo» tivesse uma ressonância poderosa. Embora a conferência de Sartre tenha tido um enorme efeito durante o pós-guerra francês, a sua influência não se preservou. Devia ser preservada.

«Comecemos por dizer que o que entendemos por “existencialismo” é uma doutrina que torna a vida humana possível e também afirma que toda a verdade e toda a acção implicam um ambiente e uma subjectividade humana», diz Sartre à audiência. Estava a contestar a ideia de que a objectividade é a forma mais importante de compreender a vida humana. A verdade e a acção não podem ser abstraídas das pessoas reais que conhecem e fazem coisas.

Embora existam existencialistas ateus e religiosos, o que lhes é comum é a ideia de que «a existência precede a essência», explica Sartre, «ou, se preferirem, que a subjectividade deve ser o nosso ponto de partida.» Isto significa que, inicialmente, os humanos são nada. Somos lançados na existência, encontramo-nos a nós mesmos (a nossa «subjectividade») e depois definimo-nos através da vontade.

Se a existência precede a essência, então somos responsáveis por criar a nossa essência

Uma faca é o oposto: a sua essência precede a sua existência porque um cuteleiro pensa no propósito e nas propriedades da faca (essência) e depois a fabrica (trazendo-a à existência). Por contraste, «o homem é, antes de tudo, algo que se projecta para um futuro e tem consciência de o fazer. O homem é, de facto, um projecto que tem uma existência subjectiva, muito diferente de um pedaço de musgo, um fungo a espalhar-se ou uma couve-flor.» (A afirmação sobre o fungo pode já não ser válida, mas as outras são, tanto quanto sabemos.) A projecção consciente torna os humanos únicos e significa também que «o homem está constantemente em construção», diz Sartre.

Se a existência precede a essência, então somos responsáveis por criar a nossa essência. «O homem nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo», explica Sartre, e este é o cerne do seu existencialismo. Se a existência precede a essência, então «o homem está condenado a ser livre: condenado porque não se criou a si mesmo, e no entanto livre porque, uma vez lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz.» Também somos responsáveis pelo que não fazemos: «se decido não escolher, isso constitui ainda assim uma escolha.»

Alguns humanismos colocam a humanidade num pedestal ou tratam-na como um ideal fixo. O «humanismo existencialista» é diferente porque coloca a responsabilidade total da existência humana nos ombros humanos. Somos os legisladores das nossas próprias vidas, abandonados mas capazes de escolher. «Buscando constantemente um objetivo fora de si mesmo sob a forma de libertação, ou de alguma realização especial, o homem realizar-se-á como verdadeiramente humano.»

O passo seguinte é uma das partes mais controversas da conferência de Sartre: «Assumo a responsabilidade de uma escolha que, ao comprometer-me a mim mesmo, também compromete a humanidade no seu todo.» A sua lógica é que, independentemente do que se faz, está-se a implicar que a ação vale a pena e que outros poderiam e deveriam fazer o mesmo. Casar, ou não casar, está-se a fazer uma declaração sobre o valor dessa instituição e sobre o que se considera ser a melhor opção para si e para todos os outros também: «Escolhemos sempre o bem, e nada pode ser bom para nenhum de nós a menos que seja bom para todos.»

Esta tomada de consciência é uma fonte importante de angústia existencial: «um homem que se compromete e que percebe que não é apenas o indivíduo que escolhe ser, mas também um legislador que escolhe ao mesmo tempo o que a humanidade no seu todo deve ser, não pode deixar de estar consciente da sua própria e profunda responsabilidade.» E se se pensa que muitas pessoas não parecem particularmente angustiadas, a resposta de Sartre é que «estão apenas a esconder a sua angústia ou a tentar não a enfrentar.»

Outra fonte de angústia é o nosso abandono. Nenhum de nós escolheu nascer, e no entanto aqui estamos. Sartre era ateu e considerava a não-existência de Deus «extremamente perturbadora» porque isso significa que não existem valores a priori, nem propósito pré-definido, nem autoridade externa para nos dizer o que fazer. Mas se Deus não existe, não é verdade que vale tudo, porque cada um de nós é responsável pelas suas ações. Não temos desculpas. «Lamento muito que assim seja», explica Sartre, mas «tem de haver alguém para inventar valores.» Esse alguém é cada um de nós, razão pela qual Sartre diz: «Tal abandono acarreta angústia.»

O conselho de Sartre ao estudante foi: «És livre, portanto escolhe; por outras palavras, inventa»

«Mesmo que Deus existisse, não faria diferença», argumenta Sartre, porque ainda assim teríamos de escolher qual Deus, interpretar quais mandamentos e decidir como se aplicam à nossa situação. «O que o homem precisa é de se redescobrir a si mesmo e de compreender que nada o pode salvar de si próprio, nem mesmo a prova válida da existência de Deus.»

«Obviamente, não quero dizer que quando escolho entre um pastel de nata e um éclair de chocolate estou a escolher com angústia», gracejou Sartre na discussão pós-conferência. Mas quando a escolha é entre ir ou não para a guerra, a angústia é a palavra certa. Sartre conta a história de um estudante que o procurou para pedir conselho. O jovem estava dividido entre juntar-se aos resistentes para vingar a morte do irmão na guerra ou ficar em casa para cuidar e confortar a mãe.

Os códigos éticos não conseguem resolver o dilema do estudante. O Cristianismo diz «ama o teu próximo». Mas qual próximo? A mãe ou os companheiros soldados? Numa perspetiva kantiana, em qualquer situação, estará a tratar alguém como meio e outro como fim. Não há sinais para ler, porque o estudante é responsável por decidir o que conta como sinal. «O homem é responsável pela sua própria paixão», portanto não adianta tentar ouvir o que as suas emoções lhe dizem para o orientar. Saberá o que valoriza apenas quando agir. Além disso, «escolher o seu conselheiro é apenas mais uma forma de se comprometer.» O conselho de Sartre ao estudante foi: «És livre, portanto escolhe; por outras palavras, inventa.»

«A escolha moral é como construir uma obra de arte», diz Sartre. «Estamos na mesma situação criativa.» Se se pensa que algumas escolhas são gratuitas, Sartre diz que isso é absurdo porque os nossos compromissos definem-nos e não podemos escapar a isso. Não chamamos gratuito a um Picasso, porque as suas obras tornaram-se o que são através da sua pintura. «O que a arte e a moral têm em comum é a criação e a invenção.»

Sartre destaca duas inovadoras ficcionais: Maggie Tulliver — a brilhante e ardente heroína vitoriana de George Eliot em O Moinho da Floss (1860), que não persegue o homem que ama por lealdade à sua prima e ao que Sartre chama «solidariedade humana, auto-sacrifício»; e La Sanseverina — a duquesa de Stendhal em O Mosteiro de Parma (1839), que tenta impiedosamente fazer com que o seu amado abandone aquela que Sartre chama a sua «noiva pateta». Sartre reflete: «Aqui, confrontamo-nos com duas moralidades diametralmente opostas, mas sustento que são equivalentes, na medida em que o objetivo último em ambos os casos é a liberdade.» Uma é altruísta e a outra é implacável, mas ambas agiram autenticamente porque escolheram deliberada e apaixonadamente. Nenhuma foi uma vítima passiva a culpar as circunstâncias pela sua situação.

Contrariamente à sua reputação de individualista, Sartre argumenta que a subjectividade «não é estritamente individual» porque «não é apenas a si mesmo que se descobre no cogito [“Penso, logo existo”], mas também a existência dos outros.» Uma pessoa torna-se quem é através dos outros e, segundo Sartre, «não pode ser nada (no sentido em que dizemos que alguém é espiritual, ou cruel, ou ciumento) a menos que os outros o reconheçam como tal.» Descobrimo-nos a nós mesmos através das perceções e exigências dos outros, a tal ponto que «cada um de nós se atinge a si mesmo na presença do outro.» Esta relação intersubjetiva é, na opinião de Sartre, o fundamento do que liga os seres humanos uns aos outros.

Embora Sartre negue a existência de uma natureza humana, argumenta que partilhamos a mesma condição humana. «As situações históricas variam», explica Sartre. «O que nunca varia é a necessidade de [um homem] estar no mundo, de trabalhar nele, de viver a sua vida nele entre outros e, eventualmente, de morrer nele.» Esta condição humana é o que torna possível compreender vidas muito diferentes das nossas.

Igualmente comum à condição humana é a má-fé — a tentativa de negar a liberdade e a responsabilidade. Sartre descreve dois arquétipos de má-fé: os cobardes (lâches) e os sacanas (salauds — no sentido de moralmente sórdidos). Quem diz «não tive escolha» é o cobarde de Sartre. Os sacanas agem como se as regras não se aplicassem a eles, como se o seu poder fosse um dado natural, ou como se o mundo lhes devesse o seu lugar. «A má-fé é obviamente uma mentira porque é uma dissimulação da plena liberdade de compromisso do homem.» A boa notícia é que as pessoas são livres para mudar.

Quando se aceita o desespero, podemos deixar de esperar que o mundo coopere e continuar a viver

Os custos pessoais da má-fé são graves mas, à escala, os custos políticos são devastadores. Escrevendo à sombra da Segunda Guerra Mundial, Sartre estava bem ciente do que estava em jogo: «Amanhã, depois da minha morte, os homens podem escolher impor o fascismo, enquanto outros podem ser suficientemente cobardes ou desesperados para deixá-los impunemente. O fascismo tornar-se-á então a verdade da humanidade, e pior para nós.» Sartre diz: «Na realidade, as coisas serão o que os homens tiverem escolhido que sejam.»

O antídoto de Sartre para a má-fé, tanto a nível pessoal como político, é o desespero: «Significa que devemos limitar-nos a contar apenas com o que depende da nossa vontade, ou com o conjunto de probabilidades que permitem a ação.» O desespero é o que resta quando deixamos de mentir a nós mesmos sobre o que podemos controlar, e então agimos sem otimismo ou ilusões. Quando se aceita o desespero, podemos deixar de esperar que o mundo coopere e continuar a viver. Sartre diz que temos de nos comprometer de qualquer forma, porque «[a] única esperança [do homem] reside nas suas ações e … a única coisa que lhe permite viver é a ação.»

«[O homem] nada mais é do que a soma das suas ações», declara Sartre. Culpar as circunstâncias ou afirmar que merecemos melhor é, para Sartre, autoengano. Segundo Sartre, «não há amor que não sejam os atos de amor; nenhum potencial para o amor além daquele que se manifesta no ato de amar.» Fazemo-nos a nós mesmos através do que fazemos, não do que poderíamos ter feito. «Na vida, o homem compromete-se e desenha o seu próprio retrato, fora do qual não há nada.»

A conferência de Sartre é motivadora, mas não é filosoficamente hermética. Por exemplo, a ideia de que somos a soma das nossas ações é controversa porque algumas pessoas pensam que temos traços que nem sempre se realizam. Poderemos ser um génio musical, mas se nunca tivemos a oportunidade de aprender a tocar um instrumento, somos músicos? Sartre diria que não, mas o conceito aristotélico de potencialidade sugere que uma pessoa pode ter capacidades não realizadas, tal como uma semente é potencialmente uma árvore, mesmo que nunca venha a tornar-se uma. Ou considere-se o vidro. A fragilidade é uma qualidade do vidro, mesmo que ninguém o parta. Mas Sartre parece estar a dizer que ele só tem a capacidade de se estilhaçar quando é efetivamente estilhaçado. Alguns, como Aristóteles, sugerem que somos mais do que a soma das nossas ações.

Sartre estende a mesma lógica às nossas emoções, com resultados igualmente questionáveis. Somos livres de escolher as nossas paixões, e negar isso é má-fé, segundo Sartre. Mas as pessoas com depressão ou trauma não experienciam a sua condição como escolhida. Para alguém cuja liberdade foi limitada, a confiança de Sartre na escolha pode parecer insensível.

Sartre não responde porquê o que é melhor para mim é também melhor para todos os outros

Um problema ainda maior no centro da conferência é a forma como Sartre responde ao desafio de que, se seguirmos este conselho, então vale tudo. O que me impede de escolher livremente ser, por exemplo, um político egomaníaco com propensão para lançar bombas noutros países? A resposta de Sartre é que, se escolho para mim mesmo, escolho como se toda a humanidade fosse seguir o meu exemplo e fazer o mesmo, ou pelo menos me observar a fazê-lo. Fazer isso sinceramente envolverá, alega ele, considerações sobre o que os outros pensam de mim, e isso irá limitar-me.

Aqui, Sartre está a introduzir subrepticiamente o imperativo categórico de Immanuel Kant (age apenas segundo uma máxima que queiras que se torne lei universal). Passar de «escolher o que é melhor para mim» para «a minha escolha é um modelo para toda a humanidade» tem sido criticado como «esboçado». O argumento é fraco porque Sartre não explica porquê o que é melhor para mim é também melhor para todos os outros. Correr maratonas é bom para algumas pessoas, mas isso não é razão para pensar que todos as devam correr. Além disso, Sartre rejeita a ideia de uma natureza humana comum, mas afirmar que «nada pode ser bom para nenhum de nós a menos que seja bom para todos» só faz sentido se partilharmos algum padrão comum do que «melhor» significa, o que requer alguma compreensão do que é melhor para todos os humanos e implica uma natureza humana partilhada.

Além disso, Sartre nunca responde: porquê preocupar-me se todos fizessem o mesmo que eu? Poderíamos dizer: «Escolho ser um egomaníaco. Claro que é bastante mau pelos padrões dos outros, mas estou a criar os meus próprios valores e é isso que escolho. Estou a ser autêntico.» Se respondermos à pergunta de estilo «controlo e equilíbrio» de Sartre — «O que aconteceria se todos fizessem o que estou a fazer?» — dizendo «Mas ninguém age assim», então, na opinião de Sartre, estaríamos a «lutar com uma consciência culpada.»

Ainda assim, o egomaníaco pode dizer: «Sim, todos deviam perseguir os seus próprios desejos, deixem-nos, não me importo.» Sartre fala como se, de alguma forma, a coerência me exigisse respeitar a liberdade dos outros, mas isso não está automaticamente incorporado no conceito de liberdade. Hitler parece ter acreditado que estava a escolher apaixonadamente, deliberadamente, para o bem de si mesmo e da humanidade, e pensava que seria bom se todos fizessem como ele. Maggie Tulliver e La Sanseverina têm moralidades diametralmente opostas, mas Sartre diz que são equivalentes porque ambas visam a liberdade. O teste de Sartre para uma boa escolha é que seja autêntica — deliberada, assumida, sem má-fé. Mas o egomaníaco autêntico e o santo autêntico passam ambos.

Sartre nunca completou uma obra sobre ética (exceto notas publicadas postumamente). Em A Ética da Ambiguidade (1947), Beauvoir parte de uma premissa diferente: a liberdade é sempre situada. Uma pessoa nascida na pobreza, criada sob opressão ou sem acesso à educação enfrenta uma situação existencial estruturalmente diferente daquela que a conferência de Sartre pressupõe. As escolhas disponíveis são mais estreitas, os custos de escolher contra a corrente são mais elevados, e a angústia da liberdade pode ser completamente tomada pela angústia da sobrevivência. Querer a própria liberdade compromete-nos a lutar pelas condições que tornam possível a liberdade dos outros. Embora Sartre reconhecesse a situação, a sua versão é mais superficial do que as estruturas sociais concretas em que Beauvoir insiste. Para Beauvoir, a obrigação para com a liberdade dos outros não precisa de ser introduzida subrepticiamente, porque decorre de levar a sério o facto de a liberdade ser sempre vivida em condições moldadas por outros. A liberdade sem atenção às suas condições é mais pensamento desejoso do que filosofia.

Sartre sabia que a sua filosofia soava sombria mas, insiste: «nenhuma doutrina é mais otimista, pois declara que o destino do homem reside dentro de si mesmo.» Criamo-nos a nós mesmos projetando-nos em direção a objetivos para além de nós mesmos. Uma pessoa nunca está acabada. Reconhecer isso confere dignidade aos seres humanos.

Não escolhemos estar aqui, neste mundo ou neste tempo, mas temos de escolher a nossa forma de viver nele

A vida posterior de «O Existencialismo é um Humanismo» é a de um livro de autoajuda psicológica disfarçado de filosofia. Um dos temas centrais é descobrir-se a si mesmo como o arquiteto da própria vida. Funciona porque encoraja as pessoas a agarrar a vida pelos colarinhos, a tomar decisões por si mesmas e a não se sentirem limitadas por categorizações sociais ou pelo que os outros acham que devem fazer. Sartre dá às pessoas licença filosófica para se reinventarem em desafio ao mundo. Pode parecer pretensioso, mas é também fortalecedor.

A conferência é psicológica na medida em que realça padrões de culpar os outros e de externalizar as decisões. Mostra que não podemos fugir à responsabilidade, mesmo que sintamos que podemos. Uma das mensagens mais importantes de Sartre é que somos responsáveis por cada escolha que fazemos, bem como por cada escolha que não fazemos. E as nossas ações significam algo para além de nós mesmos porque as nossas escolhas moldam a sociedade. Cada um de nós está a dar o exemplo, mesmo que apenas de uma forma pequena.

A conferência de Sartre foi polémica, globalmente ressonante e vale a pena revisitá-la porque continua a ser a porta de entrada mais acessível para algumas das questões mais difíceis sobre a liberdade, a responsabilidade moral e o que significa ser humano. O que Sartre nos deixa é que não escolhemos estar aqui, neste mundo ou neste tempo, mas temos de escolher a nossa forma de viver nele. Nada nos pode salvar de nós mesmos, o que é sombrio apenas se confundirmos salvação com agência. Projetarmo-nos e perdermo-nos é a forma de descobrirmos quem somos. Experimentar a angústia da escolha é uma coisa boa. Perguntemo-nos: o que aconteceria se todos fizessem como eu? Onde é que estou a buscar conforto quando devia estar a sentir angústia? E o que significa viver sem desculpas? Como Sartre disse uma vez: «a única forma de aprender é questionar.»

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