Produto Mal Cozinhado

Weli, 2 de Julho de 2026
Link para o Artigo original: [Weli's Blog]
14 minutos


O Fundador

Um fundador acabado de estrear decide entrar no negócio dos fornos. Não sabe fazer um bolo nem amassar pão, mas conhece o mercado dos electrodomésticos de cozinha de trás para a frente. Analisou todas as empresas de Espanha e chegou a uma conclusão: se vender um novo forno aos padeiros, pasteleiros e pizzaiolos do país, só precisa de conquistar 10% do mercado para se tornar multimilionário.

Os 10% são sempre pequeninos quando se escrevem numa folha de Excel.

O fundador é muito bom. Constrói um plano que, no papel, é impecável e hermético: fabricar um forno mais eficiente usando nova tecnologia. Vendê-lo é fácil. Queres trabalhar com mais eficiência? Compra o nosso forno. Fim do argumento. O fundador tem experiência a falar com investidores e consegue angariar dinheiro suficiente para construir um MVP.

O Engenheiro

O fundador procura alguém que saiba construir fornos e encontra um engenheiro de uma escola de prestígio. O engenheiro passou 10 anos a construir fornos e sabe fazê-lo. Mais do que isso: é do tipo que passa o dia todo a falar e a discutir sobre fornos. Vai a conferências de fornos. Quando chega a casa à noite, discute durante horas em fóruns italianos sobre qual o melhor tipo de forno. Os fóruns italianos são, para ele, a fonte suprema da verdade sobre fornos.

Está farto de construir fornos na Corporate Oven. Dez anos a fazer o mesmo forno que lhe mandam fazer. Quer a liberdade de construir o seu próprio.

O fundador oferece-lhe 20% da empresa e liberdade total para construir o forno perfeito. O salário não é grande coisa, mas há a promessa: se as coisas correrem bem, um dia pode ser milionário. E algo mais importante que o dinheiro: finalmente vai poder construir o forno dos seus sonhos.

Aceita.

O MVP

Com pouco dinheiro e muito entusiasmo, constroem um MVP. Dois meses depois, está pronto. É um forno funcional e, mais importante, tem uma melhoria em relação aos fornos tradicionais: introduz-se a quantidade de farinha, fermento e água, e o forno sabe automaticamente quando parar para uma cozedura perfeita.

Em teoria.

Na prática, não funciona muito bem, mas é suficientemente bom para um MVP. Lançam-se no mercado e vendem 5 protótipos: dois padeiros que o fundador conhece, a mãe do engenheiro que faz bolos, e dois entusiastas de fornos que compram por curiosidade.

O feedback é unânime:

— O meu pão saiu queimado.
— O bolo saiu cru.
— Todas as pizzas queimam.

Mas, tudo somado, é positivo: um terço das vezes, o protótipo funcionou e produziu o bolo, o pão ou a pizza perfeitos.

— Isto é só um protótipo. Imaginem quando lançarmos o produto a sério. Acreditem em nós.

E com isto, o fundador vai visitar um antigo colega que agora trabalha numa VC: «Em 2 meses construímos um protótipo, já temos 5 clientes, e é muito promissor. Só precisamos de dinheiro para escalar, construir uma versão melhor e vender a todas as padarias e pastelarias de Espanha.»

Ninguém pergunta se os 5 clientes comprariam novamente.

O fundador é muito bom. Angaria 5 milhões. Nasce a Ovens Inc.

O Fórum dos Padeiros

Começam a melhorar o protótipo. O engenheiro apercebe-se de algo: construir um algoritmo que calcula o tempo de cozedura para bolos, pizzas e pão é consideravelmente mais complexo do que parecia. Cada massa é um universo próprio. Precisam de contratar mais engenheiros.

O engenheiro sabe exactamente onde procurar. Nos fóruns italianos há dois utilizadores com quem passou anos a discutir sobre convecção e pedra refractária: o Mario e o Luigi. Nunca os conheceu pessoalmente, mas conhece as opiniões deles sobre fornos melhor do que as da sua própria família. Oferece-lhes o mesmo acordo que ele teve: salário baixo, muita liberdade, o forno perfeito.

Aceitam.

Entretanto, o fundador precisa de vender fornos, mas os anúncios no Facebook e no Instagram não têm tracção. Acontece que ninguém compra um forno industrial de quinze mil euros porque apareceu nas stories. Então contrata uma equipa de vendas lendária: os melhores vendedores de toda a Espanha. Pessoas que nunca venderam fornos, que não sabem nada sobre fornos, mas que têm fome de vender e estão muito entusiasmadas com a empresa.

No início, corre mal. Poucas pessoas querem um forno novo; estão contentes com o que têm. Porquê mudar? A maioria das pequenas empresas não se importa com um ganho de eficiência de 15%: o risco de mudar é demasiado alto. Se a Padaria do Juan trocar de forno e o novo falhar, o Juan perde os clientes e fecha. Para o Juan, a eficiência é opcional; o pão de amanhã não é. Mais vale ficar com o forno velho, mesmo que seja pior no papel. Só mudaria se a Padaria do Manolo do outro lado da rua começasse a vender pão mais barato graças a um forno mais eficiente e ele não tivesse alternativa. Mas o Manolo pensa exactamente como o Juan, portanto ninguém se mexe. Equilíbrio perfeito. Os economistas têm um nome para isto; o Juan e o Manolo chamam-lhe senso comum.

As grandes empresas são outra história. Para elas, 15% de eficiência significa milhões poupados todos os anos. E um vendedor consegue fazer contacto com a Pepepizza.

A Decisão

Entretanto, na engenharia, as coisas também não vão lá melhor. O algoritmo é instável. Conseguiram reduzir a taxa de falhas de dois terços para um terço, mas cada ponto de melhoria custa o dobro do anterior. E depois vem a descoberta incómoda: se o forno só fizer duas das três coisas (pão, bolos ou pizza), o algoritmo falha apenas 5% das vezes.

O engenheiro leva a proposta ao fundador: vamos sacrificar um mercado e ter um produto que funciona.

O fundador fica furioso. Prometeu aos VCs 10% do mercado espanhol de fornos. O mercado inteiro. «Não podemos sacrificar nenhum.»

Não é só ganância. Os 5 milhões foram angariados com o mercado inteiro no slide. O fundador não está a escolher entre o certo e o errado: está a escolher que promessa quebrar.

O engenheiro volta para a sua secretária com as suas três massas e a sua taxa de falhas de 33%.

Maiorca

De volta às vendas: há contacto com a Pepepizza, mas os negócios empresariais não se fecham por e-mail. O fundador voa para a sede da Pepepizza e conhece o dono. Dão-se muito bem. Dão-se tão bem que vão para Maiorca juntos. Ninguém sabe o que lá foi discutido. O que se sabe é que quando voltam, há um negócio fechado. Ninguém experimentou o forno ainda. Não é preciso. As vendas empresariais não são sobre fornos.

O aperto de mão vem primeiro. Os requisitos vêm depois.

E eles vêm. A equipa de operações da Pepepizza envia a lista para vendas: as cozinhas deles são feitas por medida, por isso precisam de fornos com dimensões específicas. Ah, e uma base rotativa como a que já têm.

Vendas responde: «Sem problema.»

O fundador está eufórico. A Pepepizza quer comprar um lote inicial de 500 fornos. Quinhentos. É mais receita do que tudo o que fizeram desde o início. Para a Pepepizza é um piloto pequeno, um teste em algumas localizações antes de decidirem o que quer que seja. Para a Ovens Inc. é apostar a empresa toda.

— Engenheiro, precisamos de 500 fornos para a Pepepizza. Eles querem dimensões específicas e uma base que gire. Vamos fazer acontecer.

O engenheiro só não desmaia porque já está sentado.

O algoritmo mal funciona para pizza. As dimensões do molde passaram 5 meses a ser optimizadas em CAD para o tamanho standard. E ninguém, nunca, discutiu bases rotativas nos fóruns italianos. Se não está nos fóruns italianos, será que existe?

O engenheiro abre o ficheiro CAD à frente do fundador. Mostra-lhe porque é que as novas dimensões partem o desenho térmico todo. O fundador olha para o ecrã, olha para os esquemas, olha para o engenheiro.

— Mas isto é só mudar um número, certo?

— Não podemos. Não até arranjarmos o algoritmo e redesenharmos o inversor para os novos tamanhos. São mais 5 meses.

O Milagre

Não foram 5 meses.

Depois de muitos fins-de-semana perdidos e noites inteiras à base de Red Bull, ao fim de 3 semanas há um protótipo para a Pepepizza. Foram feitos compromissos. O algoritmo ainda falha muito, mas pelo menos as dimensões estão certas. A base rotativa? Ainda não existe. É prometido à Pepepizza um add-on «daqui a uns meses». A Pepepizza diz que está bem.

O Botão das Velas

As vendas tiveram uma revelação: se venderem o forno que existe hoje, não vendem fornos. É preciso vender o forno que vai existir daqui a 6 meses. Prometer funcionalidades. Resultou da última vez: prometeram à Pepepizza o impossível e a equipa entregou em 3 semanas. O que pode correr mal?

As vendas, claro, não fazem ideia do que acontece depois de o contrato ser assinado. A comissão é paga na assinatura. O que vier a seguir é problema de outro departamento.

No entanto, há algo que ninguém na engenharia quer olhar de frente: a Ovens Inc. não vive da venda de fornos (para já). Vive de angariar rondas de investimento. E as rondas angariam-se com projecções, e as projecções fabricam-se a partir das promessas das vendas. Os «sem problema» são também a única tábua de salvação.

E então começam os pedidos diários:

— Muitos dos nossos potenciais clientes fazem bolos de aniversário. Quando perguntam se temos funcionalidades especiais para bolos de aniversário, temos de dizer que não, e perdemo-los. Podemos adicionar a funcionalidade?

O fundador não tem dúvidas. Da última vez que pediram uma funcionalidade, estimaram 5 meses e fizeram-na em 3 semanas. E isto é muito mais fácil. «É só um botão simples que adiciona velas.»

O engenheiro sobe pelas paredes. Ainda não acabaram de limpar os estragos da Pepepizza. Isto é absolutamente tudo o que não se discute nos fóruns italianos. Adicionar um botão de velas é um insulto ao estado da arte, ou melhor, ao estado do forno.

Mas cede.

— Só desta vez.

As vendas vendem mais 2 fornos por mês graças ao novo botão. Ou assim acreditam. Não têm forma de verificar se os teriam vendido na mesma sem o botão.

A Segunda Maior Prioridade

Pouco depois, chegam mais pedidos de funcionalidades.

— O meu forno em casa liga-se à lareira. O vosso também?
— Faço muitos bolos de casamento, o que é que têm para mim?
— Tem modo Ramadão?

Constroem tudo.

A engenharia deixa de tentar construir um bom forno e começa a adicionar botões e funcionalidades. Ninguém tomou essa decisão. Aconteceu simplesmente, um ticket de cada vez.

E há um pormenor que todos parecem ignorar: cada botão demora mais que o anterior. O botão das velas demorou três dias. O da lareira, uma semana. O último demorou três semanas. Não é que os engenheiros estejam a ficar mais lentos: é que cada novo botão tem de coexistir com todos os botões anteriores.

Entretanto, os clientes que compram o forno devolvem-no no prazo de uma semana. O motivo? O pão e os bolos ainda queimam 10% das vezes. O problema do MVP. O original. O do primeiro dia. Por baixo dos doze novos botões está o mesmo algoritmo do primeiro dia, e um padeiro que perde uma em cada dez fornadas não se consola com o facto de o forno fazer velas.

Quando um cliente liga a cancelar, o apoio tenta retê-lo oferecendo o que está disponível: o novo botão da última versão. Ao padeiro cujo pão continua a queimar, oferecem o modo Ramadão. O padeiro vai-se na mesma. Fica registado como feedback. A engenharia não tem tempo para parar e repensar a abordagem, porque parar não está no backlog.

E então chega o pior dia. A Pepepizza liga:

— Onde está a base rotativa?

O fundador engole em seco. O ticket está no quadro kanban há um mês e meio. Não é que ninguém o visse: é que todas as semanas algo saltava à sua frente. O botão das velas. A coisa da lareira. A coisa do Ramadão. A base rotativa era sempre a segunda maior prioridade, e a segunda maior prioridade nunca se faz. Por isso responde com convicção:

— Quase terminada.

O Pedido

— Malta, nestas duas semanas vamos focar-nos na base rotativa — diz o fundador.

A equipa não acredita. Já disseram que a base rotativa era impossível. Já explicaram porquê. Além disso, o Mario tem férias planeadas, as férias que lhe foram prometidas depois da correria da Pepepizza. E o Luigi tem o desempenho a cair há semanas e ninguém sabe porquê.

O engenheiro tenta mais uma vez:

— Não podemos fazer a base rotativa agora. Precisamos de refactorizar, consolidar e adicionar uma camada de abstracção para compartimentos e botões. Caso contrário, cada nova funcionalidade demora o dobro da anterior. Além disso, o Mario tem férias planeadas, e não tenho a certeza de que o Luigi esteja numa boa posição para lhe pedirem mais.

O fundador acena com a cabeça. Percebe. Percebe tudo.

— Mas isto é uma startup. E as startups constroem-se com sangue e suor. Todos aqui têm de sacrificar-se. Têm duas semanas.

E não o diz do sofá: o fundador tem o salário mais baixo da empresa e não tira férias há dois anos (Maiorca foi trabalho). É o primeiro a viver o discurso. Esse é exactamente o problema.

Quando Tudo é Urgente, Nada é

Há uma nova correria. Desta vez com menos entusiasmo e menos paixão. A primeira foi uma proeza épica; esta é papelada. O Mario cancela as férias. O Luigi continua a aparecer. Ninguém pergunta como ele está.

Duas semanas depois, o resultado: uma base rotativa que requer três combinações especiais de botões. É incompatível com todos os outros modos, mas não é como se alguém a tivesse testado.

É instalada na Pepepizza. A resposta da Pepepizza:

— Não roda no sentido dos ponteiros do relógio. Vamos ficar com a Corporate Oven.

A equipa: devastada. Acabaram de perder o cliente mais importante. Ninguém no produto comunicou nunca que tinha de rodar no sentido horário. Algures entre as vendas, o fundador e o backlog, o requisito mais importante do projeto simplesmente nunca existiu.

E a pior parte não é perder a Pepepizza. A pior parte é que as alterações feitas para a base rotativa vão assombrar o design do forno até ao fim dos tempos. O cliente vai-se agora. A base rotativa fica para sempre.

Sem Bloqueios

Um mês depois, o Mario sai da empresa. Não vai para um concorrente nem encontrou algo melhor: sai porque é a única maneira que vê de ter férias. Na retrospetiva, fica registado como um «aprendizado».

O Luigi fica. Agora faz a manutenção do botão das velas. É a sua especialidade, dizem. Ninguém se lembra de quem decidiu isso, mas é a sua especialidade. Continua a aparecer todos os dias, continua a fazer o seu trabalho. Nos fóruns italianos, perguntam porque é que o Luigi não publica há 5 meses. Nas daily meetings diz «sem bloqueios» e toda a gente passa à pessoa seguinte.

Epílogo

Seis meses depois.

A Ovens Inc. ainda está viva. Tecnicamente. Há dinheiro para mais oito meses e uma nova versão do pitch deck onde a palavra «forno» já não aparece: é agora uma «plataforma inteligente de confeção».

O engenheiro saiu em Março. Não bateu com a porta nem escreveu um tópico viral sobre a sua experiência. Um dia simplesmente deixou de discutir nas reuniões, um mês depois deixou de aparecer, e a sua despedida foi um e-mail de três linhas. Ninguém tocou no código dele desde então. Ninguém se atreve.

O fundador tem tudo percebido: o problema nunca foi o plano. O problema foi a execução. Precisa de outro engenheiro.

E encontra um. Jovem, licenciado numa escola de prestígio, passou anos a construir fornos na Corporate Oven e está farto. Mais do que isso: é do tipo que passa o dia todo a falar e a discutir sobre fornos. Vai a conferências de fornos. Quando chega a casa à noite, discute durante horas em fóruns italianos sobre qual o melhor tipo de forno. No fórum, um utilizador antigo avisa: «Garante que suportas bases rotativas desde o primeiro dia.» O jovem engenheiro ri-se. Quem é que usa bases rotativas num forno?

O fundador oferece-lhe 5% da empresa. Já não pode ser 20%; houve diluição (coisas das rondas de financiamento, é complicado). Mas o salário não importa, porque ele está a oferecer o mais importante: liberdade total para construir o forno perfeito.

O miúdo sorri.

Aceita.

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