O Irão, e não Trump, controla esta guerra
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Tom Nichols, 8 de Julho de 2026
Link para o artigo original: [The Atlantic]
7 minutos
Se alguma vez Donald Trump teve controlo sobre a guerra que iniciou com o Irão, já o perdeu. Os iranianos estão agora a definir os termos deste conflito e a humilhar rotineiramente o presidente americano. O «cessar-fogo» que Trump declarou no mês passado — um movimento provavelmente destinado a acalmar os mercados internacionais e a evitar acções legislativas do Congresso dos Estados Unidos — nunca existiu realmente, porque nenhum dos lados alguma vez cessou fogo. A situação regressou agora a uma espécie de troca de golpes em câmara lenta: nos últimos dias, os iranianos atingiram três petroleiros no Estreito de Ormuz, os americanos atacaram cerca de 80 alvos no Irão e os Guardas da Revolução Islâmica afirmam agora ter atingido cerca de 85 alvos associados aos EUA no Barém e no Kuwait.
Esta manhã, perguntaram a Trump se o memorando de entendimento com o Irão, o documento que deveria servir de base para as negociações, estava morto. Trump hesitou um pouco e disse: «Essa é uma pergunta muito interessante. Para mim, acho que está acabado. Não quero mais lidar com eles. São escumalha, sabes o que é escumalha? São escumalha. São pessoas doentes. São liderados por pessoas doentes. E são pessoas violentas e perversas.»
No mês passado, claro, Trump só tinha coisas boas a dizer sobre os líderes iranianos. «Estamos a lidar com pessoas que acho serem muito racionais. E foram simpáticas de lidar.» Descreveu-os como «pessoas fortes, pessoas inteligentes», que não eram «radicalizadas». Eram apenas iranianos leais, «e estão, sabes, a tentar ajudar o seu país». O MOU era praticamente um instrumento de capitulação americana que os iranianos poderiam ter redigido eles próprios, mas Trump queria sair da guerra, e por isso assinou-o — apropriadamente, em Versalhes.
Os iranianos deixaram claro que não se importam com o MOU nem, tão-pouco, com o que Trump pensa ou quer. Estão dispostos a infligir mais danos aos estados do Golfo e a aceitar danos em troca. Estes são sinais de um Estado a dirigir uma guerra, e não a reagir a uma. O Irão está a medir custos e riscos. Está a prosseguir os objectivos alcançáveis de sobrevivência do regime, controlo do Estreito e preservação do seu programa nuclear.
A administração Trump, por seu lado, atirou-se para esta guerra sem uma estratégia. Em vez disso, baseou-se em más suposições, informação desactualizada e nos instintos do presidente. Partiu do princípio — porque o presidente assim o desejava intensamente — de que o regime iraniano entraria em colapso rapidamente. Trump e o secretário da Defesa, Pete Hegseth (que encorajou Trump a ir para a guerra), ignoraram anos de análise e simulações de guerra das forças armadas e da comunidade de informações, e foram apanhados desprevenidos quando os iranianos fecharam o estreito e asfixiaram a economia internacional — a única coisa que todos os outros no mundo sabiam que eles fariam. A administração tem desde então tentado bombardear o seu caminho para sair desta guerra, mas sem capacidade para ocupar território, os Estados Unidos estão agora apenas a esgotar os seus stocks de munições caras com pouco efeito estratégico.
Mesmo para os seus padrões habituais, Trump tem estado incoerente em Ancara, na Turquia, onde participa numa cimeira da NATO. No espaço de 24 horas, renovou as suas exigências de que os Estados Unidos comprem a Gronelândia; confundiu o Irão com o Japão; e confundiu o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, com o presidente russo, Vladimir Putin. Também observou que os seus vídeos são populares no «Tic Tac». Referia-se ao «TikTok».
Não admira, portanto, que pareça incapaz de dar respostas sensatas a perguntas sobre as hostilidades renovadas. Quando hoje lhe perguntaram sobre mais ataques ao Irão, Trump disse: «Sabem, normalmente não vos diria. Não vos diria, mas sabem que mais, não há nada que eles possam fazer em relação a isso. Portanto, a resposta é provavelmente.» Não é propriamente uma resposta cheia de fogo e fúria. «Vou dar-lhes um pequeno aviso», disse Trump. «Vamos atingi-los com força esta noite, mas vamos ver como corre.» Por outras palavras: Não sei o que mais fazer, por isso vamos fazer mais alguns ataques e depois ver o que o Irão faz.
Esta não é a abordagem de um presidente a conduzir uma guerra; é a agitação de um homem que está sobrecarregado e a reagir aos acontecimentos, em vez de os orientar. Para que este tipo de ambiguidade não leve os iranianos a duvidar da determinação de Trump, o presidente acrescentou que ainda está a considerar duas outras ideias terríveis: uma invasão do território iraniano e uma campanha de prováveis crimes de guerra.
Primeiro, voltou a falar em tomar a Ilha de Kharg, uma operação que exigiria um considerável empenho de forças terrestres e levaria inevitavelmente a baixas norte-americanas. Segundo, voltou a levantar a possibilidade de atacar as infra-estruturas do Irão, incluindo pontes e estações de dessalinização. Tais instalações, se estiverem a contribuir significativamente para o esforço militar iraniano, poderão ser consideradas alvos legítimos. Contudo, Trump parece ter em mente empobrecer a população civil como forma de levar o regime à mesa das negociações — o que seria uma grave violação das leis da guerra.
Felizmente, é improvável que Trump faça algo disto. Horas após as suas várias respostas, perguntaram-lhe se a guerra estava de volta a todo o vapor. A sua resposta foi reveladora quanto à sua limitada capacidade de controlar as circunstâncias do conflito e um sinal claro para os iranianos de que não se preocupem com nada do que ele diz, porque mudará sempre de ideias.
Acho que tudo o que acontecer vai acabar muito rapidamente, e só o tornaremos mais seguro, incluindo para o petróleo. O petróleo vai ser muito livre, muito fácil, e vai acontecer muito depressa. Temos o Estreito de Ormuz; os barcos retiraram-se. Quer dizer, há um jorro de petróleo agora mesmo, temos muito petróleo.
Os Estados Unidos não «têm o estreito», de facto, neste momento. De qualquer forma, Trump rematou estas observações garantindo ao seu público, e talvez também a quem ouvia em Teerão: «Não estamos à procura de longo prazo.»
Ensinei estratégia no Colégio de Guerra Naval a oficiais militares e a civis seniores durante muito tempo. A matéria não tem muitas regras rígidas; as guerras partilham características comuns, mas cada conflito tem as suas próprias peculiaridades e circunstâncias exigentes. Uma boa regra, no entanto, é evitar ameaçar o seu inimigo e anunciar imediatamente que não tem estômago para a luta. Líderes fortes guardam as suas opiniões para si e deixam que as suas acções falem por si; líderes fracos fazem ameaças e depois anunciam o quanto não querem cumpri-las.
Trump está agora a passar por algo semelhante às fases do luto em tempo de guerra: negação de que a América falhou; raiva, que levou a novos ataques; e depois negociação, como se os iranianos pudessem de alguma forma ser comprados como um bando de operários da construção civil recalcitrantes em Nova Iorque. Nada resultou.
A depressão e a aceitação aguardam.