O Instituto. Por dentro da Mossad

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Cátia Bruno, 28 de Janeiro de 2026
Link para o Artigo original: [Observador]
90 minutos


Quem passa de carro pelo cruzamento de Glilot provavelmente nem repara. À beira da estrada, escondidos pelas árvores, estão vários edifícios diferentes da maioria dos prédios de Telavive. Vistos de cima, formam uma figura geométrica a fazer lembrar o Pentágono, e estão rodeados por parques de estacionamento cheios. Não é possível saber mais, porque não há fotografias do complexo em nenhum recanto da internet. É compreensível: esta é a sede da Mossad, o mítico serviço secreto israelita, cuja tradução à letra do nome hebraico é "O Instituto".

Ao todo, mais de sete mil pessoas trabalham diretamente no segundo maior serviço de informações do mundo, apenas ultrapassado pela CIA. Dizer "serviço de informações" para descrever a Mossad, porém, é limitado. Para além de intercetar mensagens e cultivar informadores em vários países, a instituição vai mais longe: de vez em quando, o Instituto planeia e executa o assassinato de alvos específicos.

Quando um jovem cadete chega à Mossad, são-lhe imediatamente impostas uma série de regras. "Esqueçam a palavra Mossad. Esqueçam. Não quero voltar a ouvi-la, nunca mais. Daqui para a frente, vão referir-se à Mossad como 'o escritório'." Foi isto que disse um instrutor ao jovem recruta Victor Ostrovsky, quando este entrou nas secretas em meados dos anos 1980. Pelo menos a ter fé no relato que fez no seu livro de memórias, que lhe valeu o ostracismo não apenas da Mossad, mas também de grande parte da sociedade civil israelita. Ao contar os segredos do Instituto, Ostrovsky estava a trair o seu lema: "Através do engano, vós fareis a guerra".

A fama que precede a Mossad levou a que se tornasse um tema favorito de Hollywood, com inúmeros filmes e séries a contarem as histórias dos agentes secretos israelitas como se se tratassem de James Bonds da vida real. "É um exagero", dizem alguns dentro das secretas. E, no entanto, não faltam histórias de operações que parecem demasiado inverosímeis para serem reais.

O Observador falou com familiares de agentes e um refém resgatado numa operação que envolveu a Mossad e encontrou-se em Israel com antigos espiões para reconstruir alguns dos momentos mais marcantes da História da agência. Há feitos engenhosos, casas-abrigo, elaboradas mensagens em código, fotografias secretas, informadores cruciais e agentes manipuladores. Mas há também um rasto de sangue e os efeitos que este deixa nas vítimas, nos familiares e nos próprios agentes.

Um antigo ministro dos Negócios Estrangeiros israelita disse uma vez que Israel "nunca confirma nem nega" se é autor de determinadas operações e assassinatos. Isso, porém, não é verdade. Como mostram estes relatos, contados na primeira pessoa.

Operação Finale

Um passaporte falsificado, um par de luvas de pele, uma máquina fotográfica Leica. Estes eram alguns dos objetos que os visitantes podiam ver atrás das vitrines naquela exposição itinerante, que passou por várias cidades do mundo, sobre o rapto e julgamento de Adolf Eichmann. Estávamos em 2017 e a captura do dirigente nazi e oficial das SS na Argentina — e a sua posterior condenação à morte em Israel — continuava a ser relevante, quase 60 anos depois de Hannah Arendt ter eternizado o processo em Eichmann em Jerusalém (ed. Ítaca).

Mas, para além daqueles objetos previsíveis numa operação do género, os visitantes puderam também cruzar-se com um mais inesperado: uma agulha feita à mão, composta por peças de metal encaixadas e um pequeno cabo improvisado de couro. Parecia mais uma ferramenta de bricolage do que um instrumento médico delicado. E, no entanto, aquele pequeno objeto foi essencial para a execução de uma das operações mais eficazes da Mossad, que cristalizou a imagem de um serviço secreto capaz de feitos quase impossíveis.

A agulha fora emprestada à exposição por Danny Elian e Miri Halperin Wernli, filhos do criador daquele instrumento, o médico anestesista Yonah Elian. "Esteve no museu durante uns anos, mas depois dissemos 'Não, não, nós queremo-la na família e queremos dá-la aos nossos filhos'. É muito especial", relata ao Observador a filha, quase dez anos mais tarde. O trabalho do seu pai na captura de Eichmann foi essencial, mas, ao contrário de vários dos homens e mulheres que participaram no rapto, o Dr. Elian não era oficialmente um agente da Mossad. Nem nunca fez alarido do papel que teve na Operação Finale.

Uma equipa de sobreviventes do Holocausto e uma operação desenhada ao pormenor

Tudo começa com uma pista vinda da Alemanha.

Um procurador do país passa à Mossad a informação de que uma jovem em Buenos Aires tinha conhecido um rapaz chamado Nicolas Eichmann, cujo pai usava o nome falso de Ricardo Klement. Eichmann era um apelido inconfundível: batia certo com o de um oficial das SS que tinha participado no planeamento da Solução Final. Desde o final da II Guerra Mundial que Eichmann usava nomes falsos e, por isso, o seu paradeiro deixou de ser conhecido. Em 1950, tinha conseguido chegar à Argentina com o nome de Klement, mas o mundo ainda não o sabia.

Quando a informação chega a Isser Harel, diretor da Mossad, este acha de imediato que a agência não deve procurar Eichmann para o assassinar, mas sim para o capturar e levar para Israel a fim de ser julgado publicamente, numa grande operação mediática. É essa a proposta que apresenta ao primeiro-ministro. "Gostava de ter luz verde para o trazer de volta para Israel", diz-lhe. "Fá-lo", responde David Ben-Gurion.

O comandante escolhido para liderar a operação é Rafi Eitan. À altura, Eitan é ainda um espião quase desconhecido e não adivinha que esta operação o tornará num dos agentes mais conhecidos da Mossad. É ele quem escolhe um a um os agentes que participariam na operação. "Eles eram os melhores para esta missão. Para outros trabalhos seriam melhores outras pessoas", recordaria décadas mais tarde. "A minha primeira escolha foi Malkin."

Peter Zvi Malkin era um agente da Mossad especialista em explosivos e era também um artista. "Na arte, como na espionagem, é preciso inspiração, diligência e uma capacidade de concentração que é necessário preservar até ao último milímetro", disse em tempos. Ao longo da operação para raptar Eichmann, passaria os tempos mortos a desenhar num caderno; essas ilustrações acabariam também na exposição onde se podia ver a agulha do médico Elian.

A irmã e três sobrinhos de Malkin tinham sido mortos numa câmara de gás. Muitos outros dos seus colegas escolhidos para esta operação tinham sido afetados pelo Holocausto. Avraham Shalom, nascido em Viena, tinha sido espancado pelos colegas de escola aos nove anos por ser judeu; Moshe Tavor também tinha perdido familiares na Shoah e juntara-se a um grupo de caçadores de nazis após a guerra; Yaakov Medad, responsável pela logística, perdera o pai no gueto de Theresienstadt e a mãe em Auschwitz; o falsificador Shalom Dani Weiss tinha sobrevivido a um campo de concentração, de onde se murmurava que tinha fugido falsificando uma autorização em papel higiénico. O diretor da Mossad avisa-os a todos: têm de controlar os seus impulsos nesta missão, porque Eichmann tem de chegar a Israel vivo.

Arrancam então os preparativos. A 24 de março de 1960, os primeiros operacionais aterram na capital argentina, todos vindos em voos diferentes. Weiss já tinha tratado dos passaportes falsos para os agentes e agora era a vez de Meidad arranjar carros e casas-abrigo. "Eu tinha quatro carros e dois apartamentos, mas era difícil arranjar um carro grande o suficiente em Buenos Aires", contará mais tarde numa entrevista, a propósito da necessidade de arranjar um automóvel onde pudessem levar o refém de forma discreta. "Finalmente encontrei um Chevrolet numa garagem. Não queriam que eu ficasse com ele porque iam desmontá-lo para peças. Ao fim de uma hora, apareci com um depósito de cinco mil dólares. Duzentas e cinquenta notas de 20 dólares. Levaram-me ao banco, verificaram se as notas eram verdadeiras e disseram 'OK'. Fiquei com o carro."

É então altura de os outros agentes aterrarem e começarem a vigiar o alvo. Com uma câmara fotográfica Leica, registam os seus movimentos. Revelam as fotos numa loja e começam a tentar verificar se o suspeito é de facto o verdadeiro Eichmann, comparando a orelha esquerda das fotografias com uma antiga foto de Eichmann de perfil, quando era soldado. Pensam ter encontrado o seu homem e começam a desenhar uma estratégia.

"O plano era raptar Eichmann enquanto ele ia a pé para casa da paragem de autocarro", conta Rafi Eitan. "À medida que ele andasse, o Zvi Malkin ia em direção a ele, como se fosse por acaso. Eu queria que o Tavor fosse atrás. Depois, para não levantar suspeitas, o Malkin ia dirigir-se a ele com uma pergunta: 'Un momentito, señor'. E depois agarrá-lo e apertar-lhe as artérias carótidas."

A frase combinada

No dia 11 de maio, o plano é posto em ação. Os operacionais aguardam num carro perto da casa de Eichmann, na Rua Garibaldi, pelo autocarro que "Ricardo Klement" apanha todos os dias para vir do trabalho, numa fábrica da Mercedes-Benz, e que costuma chegar entre as 19h20 e as 19h30. Nessa tarde, Eichmann atrasa-se — será preciso esperar até às 20h para que os agentes da Mossad o vejam chegar. Malkin, que tem a incumbência de agarrar nele, trouxe um par de luvas de pele. "A ideia de colocar as minhas mãos nuas por cima da boca que tinha ordenado a morte de milhões, de sentir a respiração quente e a saliva na minha pele, enchia-me de um sentimento assoberbante de repulsa", explicaria mais tarde o agente no seu livro de memórias Eichmann in My Hands (sem edição em português).

Malkin aproxima-se então e diz a frase combinada: "Un momentito, señor". De seguida agarra-o e dois outros agentes ajudam-no a levá-lo para dentro do carro — sentam-se os três no banco de trás e colocam-no deitado em cima das suas pernas. "Ali estava eu, a segurar a cabeça de um assassino em massa nos meus joelhos", recordou Eitan. "O [Zvi] Aharoni estava a conduzir e eu pus um pano por cima da cabeça de Eichmann."

A equipa leva Eichmann para a casa-abrigo principal, uma vivenda perto do aeroporto. Malkin e Aharoni fecham-se com ele num dos quartos. Perguntam-lhe três vezes como se chama e três vezes ele responde "Ricardo Klement". Medem-lhe a altura, o tamanho da circunferência do crânio (56 centímetros), analisam a orelha e as cicatrizes no corpo que sabem ter. Tudo bate certo, excepto os dentes (Eichmann agora usa dentadura).

Aharoni volta a perguntar-lhe como se chama. Desta vez, Eichmann responde "Otto Heninger", outro nome falso que usou antes de vir para a Argentina. "O seu número nas SS era o 45526", diz o agente da Mossad. "Não. Era o 45326." Aharoni insiste: "Boa. Agora: Was ist dein Name?" ("Qual é o seu nome?") E o homem finalmente responde "Ich bin Adolf Eichmann."

"Reconheces a estrela?"

É então que entra em cena o médico. O doutor Yonah Elian é chamado para fazer uma avaliação ao alemão. Primeiro de tudo, examina-lhe a boca, para ter a certeza que não tem nenhuma cápsula de cianeto para se tentar suicidar. Depois, mede-lhe a tensão. "Não se preocupem. Ele é forte como um cavalo", diz aos agentes.

Elian era também ele um sobrevivente do Holocausto e já há alguns anos que trabalhava com a Mossad. Miri Halperin Wernli acredita que o pai foi escolhido pela agência pelo seu elevado nível de especialização: "Tinha imensa habilidade com os dedos. Tratava bebés, porque sabia a posologia exata, sabia usar substâncias na dose certa para manter alguém não totalmente consciente, mas também não totalmente inconsciente." A filha acha que a personalidade de Yonah também contribuiu para que fosse escolhido. "Ele era muito leal e muito introvertido, não falava, e eles sabiam", conta. "E já o conheciam há muitos anos. É claro que tiveram de confiar nele a primeira vez, mas foi uma relação que evoluiu ao longo dos anos."

Essa capacidade de não falar sobre o que se passava nas operações fez com que os filhos não soubessem durante muitos anos que o pai trabalhava com a Mossad. Simplesmente, diziam-lhes que o pai tinha ido de viagem — e eles não faziam perguntas. "Muita gente em Israel envolve-se em operações secretas e outras coisas do género", aponta Miri. "Acho que nos está no sangue. Não era algo anormal; claro que foi com o caso de Eichmann, mas o meu pai trabalhou em muitas outras operações."

O trabalho fulcral do médico nesta operação era o de drogar o criminoso nazi. "A ideia era levá-lo para fora do país vestido como um assistente de bordo da [companhia aérea israelita] El-Al. Para isso, precisavam de lhe dar medicação na dose certa para que ele conseguisse andar. E o meu pai, como era anestesista, sabia como usar a medicação e tinha aquela agulha especial de metal que ele criou", explica Miri, referindo-se ao instrumento que permite ao médico ir injetando discretamente uma nova dose à medida que é necessário.

Tudo tinha sido treinado previamente entre o médico e o comandante Rafi Eitan, como contou este último nas suas memórias, Capturing Eichmann (sem edição em português): "Perguntei ao Elian se podia observar uma cirurgia em que fosse usado aquele anestésico. Ele deixou-me assistir à cirurgia, totalmente equipado, e apresentou-me aos colegas como Dr. Flatfoot. Para a operação de rapto, deu-me instruções precisas sobre o material de que ia precisar. Entre outras coisas, pediu-me o dobro da quantidade de oxigénio que tipicamente seria precisa em terra."

Naquele dia, o agente Malkin trata de tudo. Pinta o cabelo a Eichmann e cola-lhe um bigode falso. Depois, veste-o com o uniforme da El-Al, que inclui a estrela de David ao peito. "Reconheces a estrela?", pergunta-lhe o agente enquanto o faz ver-se ao espelho. "Ja", responde-lhe o alemão. O Dr. Eilan administra-lhe depois uma injeção com o sedativo.

Quase de imediato, Eichmann fica meio aturdido. Os agentes entram com ele no carro, também eles fardados. Malkin recorda como conduziram até à pista: "Os guardas do posto de controlo, ao repararem que os passageiros no banco de trás pareciam estar a curar uma bebedeira, riram-se enquanto deram autorização ao carro para passar, sem pedir os papéis. Eram só mais uns judeus bêbados." O resto está combinado com a própria tripulação da El-Al, que ajuda o refém a subir a bordo. Sentam-no ao pé da janela do primeiro lugar do lado esquerdo. O médico vai sentado ao seu lado.

O fardo do médico que drogou Eichmann

Doze dias depois da captura de Eichmann, o primeiro-ministro Ben-Gurion anuncia o feito num Conselho de Ministros: "Há muito que os nossos serviços de segurança procuravam Adolf Eichmann e acabaram por encontrá-lo. Ele está em Israel e irá ser julgado aqui."

Eichmann acabaria por ser julgado, condenado à morte e executado. O julgamento foi acompanhado em todo o mundo. A Operação Finale ficou marcada na memória coletiva do mundo e ajudou a cimentar a reputação da Mossad como infalível. Foi "a melhor operação de relações públicas da agência", define o experiente jornalista Yossi Melman, que acompanha há anos os serviços secretos israelitas. "A Mossad adora o seu próprio mito e cultiva-o, porque os ajuda", disse Melman numa entrevista ao Süddeutsche Zeitung. "Desde então que vivem para esta lenda de que a Mossad apanha qualquer pessoa, em qualquer lado."

A aura de invencibilidade perdurou, mas com a operação também vieram outros efeitos menos positivos. Os agentes e os seus familiares continuavam sem poder falar de detalhes do caso com ninguém. Daphna, a filha de Aharoni, recorda como o pai lhe trouxe um casaco de pele vermelho da Argentina, mas também como foi difícil manter esse segredo e não poder falar com o pai sobre ele: "Soubemos desde cedo que ele tinha apanhado o Eichmann, mas não tínhamos autorização para dizer a ninguém", contou ao Jerusalem Post. "Há tantas coisas que ainda hoje não sei."

O mesmo aconteceu com Miri e o seu pai. "Houve livros e filmes, mas ele nunca quis que o nome dele aparecesse em lado nenhum", diz, apesar de explicar que Yonah nunca conseguiu manter totalmente em segredo o seu papel na operação. "É um país pequeno", acrescenta.

O Dr. Elian não ficava em silêncio apenas por devoção à Mossad. Sentia-se constrangido pelo seu papel na organização, num conflito interno relativamente ao juramento de Hipócrates. E a isso somava-se a vergonha por uma operação que acontecera seis anos antes da captura de Eichmann, onde o médico teve uma responsabilidade semelhante. A diferença é que, dessa vez, o alvo era um cidadão israelita, suspeito de ter vendido segredos militares — e que acabou por morrer porque a dose do sedativo foi mal calculada pelo médico.

Eilan foi, durante anos, o único civil com conhecimento do que tinha acontecido. E Miri Halperin Wernli acredita que o caso terá contribuído para a angústia que levou o pai a suicidar-se, aos 88 anos, e que nem o sucesso da Operação Finale apagou. "É algo dramático, mas é o que é", desabafa a filha, com um ar de resignação. "É um fardo para a pessoa e também para a família, alguém fazer sacrifícios destes sabendo ao que podem levar. É um sacrifício que fazem pelo país, por aquilo que acham que é correto."

Apesar da marca profunda que o trabalho com a Mossad deixou em Yonah Eilan, a família não guarda rancor ao Instituto. "É claro que se paga o preço, mas muitas pessoas pagam outro tipo de preço que não a morte", diz Miri. "Estamos muito orgulhosos daquilo que ele fez com a Mossad."

"O nosso homem em Damasco"

"Foi muito emotivo quando me contaram isto. Era uma coisa que tinha estado em contacto com a pele do Eli." Nadia Cohen tinha acabado de receber o relógio do marido, Eli, o famoso espião israelita que foi capturado na Síria e cujo corpo nunca foi recuperado. Estávamos em 2018 e a Mossad e outras forças especiais do país tinham levado a cabo uma operação em solo sírio que permitiu recuperar vários itens pessoais que pertenceram a Eli Cohen — incluindo aquele relógio de visor amarelecido.

Cohen nasceu no Egipto em 1924, numa família judia ortodoxa, o segundo filho mais velho de oito irmãos. Ao contrário da maioria deles, sempre foi profundamente religioso. Excelente aluno, tinha uma memória prodigiosa: costumava ir à varanda do prédio apontar as matrículas dos carros e depois decorá-las. Isso viria a ser-lhe muito útil no futuro como agente da Mossad.

Mas Eli Cohen só se torna espião aos 33 anos, depois de ter emigrado com a família para Israel. Nos primeiros tempos, partilha quarto com um dos irmãos mais novos, Avraham, que não faz ideia de como Eli começou a contactar com a Mossad. "Inicialmente, ele ficou empregado como tradutor para hebraico da imprensa árabe numa unidade de informações [do Estado]. Mais tarde, arranjou trabalho como contabilista no maior fornecedor de cooperativas e colonatos em Israel", conta ao Observador, décadas depois, o irmão Avraham. "No verão de 1959, casou-se com a Nadia. Um mês depois, recebeu uma visita inesperada dos serviços de informações de Israel."

A Mossad está a par do passado de Eli no Egipto, onde tinha chegado a estar preso por ligações a grupos sionistas. E começa a testá-lo. A avaliação é ambígua, como revelam Dan Raviv e Yossi Melman no livro Every Spy a Prince (sem edição em português): "A agência concluiu que Cohen tinha um QI elevado, muita coragem, uma memória fenomenal e capacidade de guardar segredos; mas os testes também revelaram que, 'apesar da sua aparência modesta, tinha um sentimento exagerado de vaidade' e 'muita tensão interna'. Cohen, indicavam os resultados, 'nem sempre avalia corretamente o perigo e tem tendência a assumir riscos acima do necessário'".

Cabe a Meir Amit, diretor da Mossad à altura, decidir se Eli Cohen deve ou não ser usado como espião do Instituto. "Questionei-me centenas de vezes: o Eli consegue fazer o que eu quero? Sempre lhe demonstrei, é claro, a minha confiança. Não queria que ele pensasse nem por um momento que estaria sempre a um passo do alçapão que o enviaria desta para melhor. E, no entanto, alguns dos melhores cérebros da Mossad dedicavam-lhe tudo o que tinham. Por fim, decidi avançar com o Eli", recordaria ao jornalista Gordon Thomas, no livro Os Espiões de Gedeão (ed. Prefácio).

O treino arranca. Eli tem um formador chamado Yitzhak que se dedica a melhorar ainda mais a boa memória do espião. Coloca vários objetos em cima de uma mesa, como uma caneta, um cigarro, um porta-chaves, e deixa Eli olhar para tudo durante dois segundos. Depois, o egípcio tem de descrever os objetos de olhos fechados. Ao mesmo tempo, o recruta estuda História, Geografia e Economia da Síria. Treina o sotaque, para transformar a sonoridade do seu árabe egípcio num árabe semelhante ao falado na Síria — e ouve recorrentemente a rádio do país, para se habituar à sonoridade.

O diretor da Mossad e Eli Cohen dedicam-se então a preparar a sua missão na Síria, onde Cohen se infiltrará. A personagem criada é a de Kamil Amin Thabet, empresário sírio a viver na Argentina que irá regressar ao seu país, trazendo consigo uma pequena fortuna. Meir Amit recorda esses dias: "O Eli aprendeu a linguagem de um importador-exportador na Síria. Decorou as diferenças entre guias de transporte e certificados de transporte, contratos e garantias, tudo o que precisava de saber. Era como um camaleão a absorver tudo. À frente dos meus olhos, Eli Cohen desvaneceu-se e Thabet transfigurou-se, era agora o sírio que nunca tinha abandonado o desejo de regressar a casa em Damasco. A cada dia, Eli ficava mais confiante, mais assertivo e com vontade de provar que conseguia interpretar aquele papel. Era como um maratonista campeão do mundo, treinado para ter o seu ponto alto no início da corrida", disse Amit em Os Espiões de Gedeão. "Mas ele poderia vir a correr durante anos. Fizemos tudo o que podíamos para lhe mostrar como manter o ritmo na sua nova vida, como vivê-la. O resto era com ele. Todos sabíamos isso. Não houve uma grande despedida. Ele escapuliu-se de Israel, como todos os meus espiões faziam." Para a Mossad, Eli Cohen torna-se, a partir daí, "o nosso homem em Damasco".

As festas de um empresário no bairro da elite de Damasco

A família não faz ideia do que Eli se está a preparar para fazer.

A filha Sophie descreveu em tempos o pai como "uma pessoa muito conservadora". "Ele não era de todo aventureiro, corajoso ou em forma", disse num documentário da Al Jazeera. "Acho que o que viram nele foram outras coisas."

A mulher, Nadia, também não faz ideia da missão que Eli está prestes a iniciar. O marido não lhe conta que foi contratado pela Mossad, dizendo apenas que tinha passado dos serviços de contabilidade para os serviços comerciais, o que explicava a necessidade de viajar durante vários meses.

Eli Cohen prepara-se para seguir para Buenos Aires. Primeiro, faz escala em Munique, onde um colega o espera para lhe dar material: folhas de papel onde poderia usar tinta invisível, livros com códigos de transmissão, um transístor, uma máquina de barbear elétrica que serve como antena para transmitir mensagens. E cápsulas de cianeto, disfarçadas numa embalagem de aspirina, que deverá utilizar para se suicidar caso venha a ser apanhado.

Depois de algum tempo em Buenos Aires, onde faz contactos junto da comunidade árabe e trabalha a sua identidade falsa como homem de negócios, Eli acaba por rumar a Damasco. Ali chegado, instala-se em Abou Roummaneh, o bairro da elite, cheio de embaixadas e edifícios militares. A 25 de fevereiro de 1962, envia a sua primeira transmissão, em código morse, para Telavive. Nos escritórios da Mossad, abre-se uma garrafa de champanhe.

É então que Eli Cohen começa a construir a sua teia. Como homem de negócios bem sucedido, é anfitrião em festas que se tornam populares junto da alta sociedade, com a participação de ministros e empresários, mas também de secretárias e hospedeiras de bordo — bem como prostitutas vindas do Líbano e de França. O espião israelita aperfeiçoa a técnica de fingir estar embriagado quando na verdade está perfeitamente sóbrio. Já sobre as faladas aventuras sexuais, não há consenso: os colegas garantem que não se envolvia com mulheres, mas o historiador Samuel Katz assegura que Eli "teve 17 amantes na Síria, todas belezas estonteantes com algum poder a nível familiar (...) que o poderiam ajudar a fugir se houvesse uma crise". O agente da Mossad que o monitorizava diz que Eli Cohen não pisava qualquer linha: "Habituámo-nos a trabalhar com agentes que de vez em quando desafiavam os limites, como incluir todo o tipo de coisas na lista de despesas para os ajudar a manter o seu disfarce. Mas o Eli não era como esses agentes. Ele era direto connosco." Raramente fazia pedidos ao quartel-general.

Para se aproximar ainda mais de figuras do regime, Eli Cohen finge ter opiniões políticas próximas do socialismo, para agradar ao regime baathista, e chega a financiar o partido. Segundo o livro Héros du Mossad (sem edição em português), era habitual dizer em voz alta que "o potencial militar deve ser reforçado perante a ameaça sionista". Representava tão bem o papel que às vezes começava a esquecer quem era realmente. "Tenho de me concentrar muito para me lembrar do meu verdadeiro nome", confessa a um chefe.

As poucas viagens a casa são marcadas pela cada vez maior distância da família. Envia aos filhos brinquedos e roupas, mas, quando chega, não consegue ligar-se a eles. No documentário da Al Jazeera, a filha Sophie recordou uma vez em que o foram receber ao aeroporto: "Estava nervoso. Pegou na minha mão e apertou-a. Quase não me reconheceu. Estava tão nervoso que me magoou a mão, mas tive demasiada vergonha para lhe dizer. Ele era sempre como um estranho para mim." Oded Gur-Arie, filho de outro espião da Mossad, questionou-se em tempos sobre como seria se "o James Bond tivesse família". "Olhamos para o glamour e para a aventura, mas não para os humanos e para o custo que isto tem sobre outras pessoas."

Os deslizes que acabaram em captura

Na Síria, o trabalho de Eli Cohen corre de feição. O tenente Maazi acaba por convidá-lo para fazer uma tour pelos Montes Golã, zona de acesso exclusivamente militar. Cohen vê os bunkers e a artilharia ao pormenor, registando mentalmente a localização de cada um. Voltaria lá várias vezes, uma delas até tirando fotografias. Mas o momento deixa-o angustiado. "Senti desespero", confessaria mais tarde. "Queria pegar num barco, atravessar o mar da Galileia e voltar para casa. O lago era como um vasto e terrível oceano a separar-me dos meus amigos e da minha família. Sentia-me como um farol isolado, a emitir desesperadamente o sinal de aviso através da noite, para salvar o navio de Israel dos perigos que o ameaçavam."

As visitas aos Golã, porém, seriam fulcrais para a Mossad e contribuiriam para a invasão bem sucedida do Exército israelita na Guerra dos Seis Dias, em 1967. "Tudo o que viu foi comunicado aos israelitas através de um transmissor secreto que mantinha escondido na persiana da janela", recorda ao Observador o seu irmão Avraham. "Aqui, os superiores do Eli liam os seus relatórios com espanto, fascinados com a forma como um introvertido de Alexandria tinha conseguido de forma tão convincente tornar-se 'Kamil', o socialite extraordinaire de Damasco."

Só que Eli Cohen começa a ficar mais descuidado. Tem ordens para não fazer transmissões em código morse com mais de dois minutos, mas começa a ultrapassar em muito o limite. Envia as suas mensagens habitualmente sempre à mesma hora, 8h30 da manhã, o que não é aconselhado — e às vezes até envia mais do que uma por dia, o que também viola as recomendações da Mossad. No livro Israel's Secret Wars (sem edição em português), lê-se que, entre 15 de março e 29 de agosto de 1964, Cohen enviou mais de cem mensagens, com uma duração média de nove minutos.

Os temas abordados também começam a ser cada vez mais arriscados. Uma vez, envia uma mensagem a comentar a derrota da seleção nacional de futebol israelita. Outras, fala diretamente da família, desejando um feliz aniversário à filha ou à mulher. O irmão Avraham não tem dúvidas de que Eli começava a estar corroído pela sua identidade dupla e, por isso, começava a cometer erros. "Por um lado, era um charmoso milionário árabe que convivia com os ricos e famosos de Damasco; por outro, um emigrante do Egipto que trabalhava como contabilista e vivia num apartamento modesto na cidade israelita de Bat Yam. Não sei se os seus superiores entendiam quão marcante era esta diferença, que poderia levar a um colapso."

Não demora muito até a ousadia resultar em desastre. As suas transmissões frequentes começam a fazer interferência com o quartel-general do Exército sírio, que fica mesmo em frente ao seu apartamento. Os sírios pedem aos serviços secretos militares russos que investiguem; e estes não tardam a identificar a casa de Eli Cohen como a origem dos sinais. A 19 de janeiro de 1965, os homens do coronel Suedani invadem o apartamento do espião e apanham-no em flagrante: está a fazer uma transmissão em morse nesse preciso momento, sobre uma reunião que tinha tido na véspera onde estava presente o Presidente Amin al-Hafiz.

Eli Cohen é de imediato detido. O seu principal interrogador relatou o que se seguiu, segundo o livro Mossad: As Grandes Operações dos Serviços Secretos Israelitas (ed. Dom Quixote): "Quando olhei nos olhos de Thabet, fui rapidamente assaltado por uma suspeita terrível. Senti que o homem que estava à minha frente não era de todo um árabe. Com muito cuidado, fiz-lhe algumas perguntas sobre a religião muçulmana e o Alcorão. Pedi-lhe para recitar o Sura al-Fatiha, o primeiro capítulo do Alcorão. Ele mal conseguia citar uns quantos versos. Tentou defender-se dizendo que tinha saído da Síria ainda muito jovem e que a memória o estava a trair. Mas, nesse momento, eu soube: ele era um judeu." Segue-se a tortura e Cohen acaba por confessar.

Os sírios decidem julgar publicamente Eli e todos sabem que a sentença mais provável é a pena de morte. O espião ouve as testemunhas, sem conseguir esconder um ligeiro tremor na bochecha esquerda, sequela da tortura a que foi sujeito. Em Bat Yam, a família segue os procedimentos pela televisão, em silêncio. A mãe de Eli a certa altura levanta-se, beija o ecrã e encosta o seu fio com uma estrela de David à imagem do rosto do filho.

Mas Israel ainda não está pronto para deixar Cohen para trás. O país recorre a um oficial francês, que é amigo pessoal do Presidente sírio, para servir de intermediário: este viaja para o país e oferece-se para comprar a vida do espião. No bolso, leva um cheque de um milhão de dólares e a promessa de tratores, bulldozers e ambulâncias. O Presidente Al-Hafez recusa recebê-lo.

Monta-se uma campanha internacional, que inclui até um apelo do Papa Paulo VI para que Cohen não seja executado. Mas de nada vale: a 31 de março, é condenado à morte. A 18 de maio, é acordado e vestido com uma túnica branca. Deixam-no escrever uma carta para a família e encontrar-se com um rabino. É depois levado para a Praça dos Mártires. Ao peito, prendem-lhe um cartaz onde está escrita a sua sentença em árabe. Quando sobe para o cadafalso, Eli recita a oração hebraica Vidui: "Deus todo-poderoso, perdoa-me por todos os meus pecados e transgressões." O carrasco coloca-lhe a corda ao pescoço e Cohen é enforcado. O seu corpo fica exposto na praça, preso pela corda, durante seis horas.

A filha Sophie nunca esquecerá essa imagem. "Ainda hoje, quando vejo os documentários na televisão, viro a cara", confessaria no livro Héros du Mossad. "Como menina e ainda hoje como mulher adulta, não me recuperei da violência dessas imagens. Trata-se da morte do meu pai ao vivo. Grito por dentro."

O corpo que nunca regressou à família

As autoridades sírias esconderam-no de imediato e nunca aceitaram os pedidos de Israel. A Mossad sabe que foi inicialmente enterrado no cemitério judaico de Damasco e depois foi várias vezes mudado de local. Em 2014, os serviços secretos russos serviram de intermediários para tentarem resgatar o cadáver de Eli Cohen, mas as negociações falharam. "A minha família e sucessivos governos de Israel imploraram pelo regresso dos seus restos mortais, mas recebemos sempre uma rejeição clara. Até quando a Síria entrou em conversações de paz com Israel [em 2025], o pedido para o regresso do corpo de Cohen como sinal de boa vontade foi rejeitado", desabafa o irmão Avraham.

O melhor que a Mossad conseguiu foi a operação de 2018, quando conseguiu resgatar vários bens pessoais de Eli, incluindo o relógio que foi entregue a Nadia Cohen. Havia ainda um conjunto de documentos onde estava a última carta que escreveu à mulher: "Nadia, peço-te perdão. Toma conta de ti e das crianças. Garante que eles têm uma educação completa. Não te negues e não lhes negues a eles nada e mantém-te em contacto com a minha família." Eli pede-lhe ainda que volte a casar, mas ela não o faz. "Todos estes anos mantive-me fiel a ele", garantia Nadia em 2010 numa entrevista ao jornal israelita Haaretz. "Não quero morrer a desejar que o Eli possa descansar no solo da terra que ele amava e pela qual deu a vida. Espero, rezo, que ele regresse a casa antes de eu morrer."

Mais de 60 anos depois da sua morte, Eli Cohen continua a assombrar a memória de Israel e, em particular, da Mossad. Na sede da Cesareia, a divisão de elite dentro da agência, o seu retrato está pendurado na parede. "Ele continua a ser, do que sabemos, o único agente judeu da Mossad que nunca regressou da sua missão", resumiria ao Figaro Yossi Melman, jornalista especialista nos serviços secretos do país. "O mito em torno dele deve muito a este epílogo dramático."

Mas o trauma nacional é pequeno quando comparado com o da família de Eli Cohen. "Desde a morte do meu irmão, tenho tentado revelar o mistério em torno do espião mais famoso de Israel, a carga emocional desta personalidade especialmente enigmática e heróica pesa-me", diz Abraham. "Durante todo este tempo, tentei trazer uma nova luz ao homem que a maioria dos israelitas conhece apenas como lenda."

Operação Fonte da Juventude

Ehud Barak chega a casa por volta das seis da manhã. Tenta não acordar a mulher enquanto se prepara para ir para a cama. "A última coisa de que me lembro é da minha mulher à beira da nossa cama enquanto eu acordava, por volta do meio-dia do dia seguinte", recordaria na sua autobiografia My Country, My Life (sem edição em português). "Ela viu a minha maquilhagem dos olhos e o resto de batom, abanou a cabeça e sorriu. Não precisava de perguntar onde é que eu tinha estado. A rádio em Israel estava cheia de notícias sobre uma enorme operação em Beirute."

O homem que viria a ser primeiro-ministro de Israel tinha acabado de regressar de uma operação estrondosa, feita em conjunto pela unidade de elite Sayeret Matkal e a Mossad, que ficaria na memória coletiva do país: a Operação Fonte da Juventude, em que três operacionais da Fatah foram mortos, surpreendidos nas suas camas em apartamentos, numa das principais ruas da capital libanesa. Para isso, Barak e outros dois agentes tiveram de se mascarar de mulher, com cabeleira e maquilhagem.

O catalisador foi uma tragédia que acontecera menos de um ano antes, quando oito palestinianos da organização Setembro Negro fizeram reféns membros da equipa olímpica de Israel em plenos Jogos de Munique — todos acabariam por morrer. Aviram Halevi, antigo membro da Sayeret Matkal e autor de um livro sobre esta unidade, sublinha ao Observador a importância do que aconteceu: "Munique foi um momento que dividiu as águas. Até aí, a causa palestiniana não era levada assim tão a sério pelas autoridades israelitas e europeias", diz. "A primeira-ministra Golda Meir ficou chocada, como toda a gente, e decidiu imediatamente que era preciso alterar o curso dos acontecimentos. E seguiu a recomendação do chefe da Mossad, Zvi Zamir, de que precisávamos de ser mais proativos."

A resposta foi uma campanha de vingança, que ficou informalmente conhecida como "Ira de Deus" — popularizada no filme Munique, de Steven Spielberg —, muito embora não tenha havido uma única operação gigantesca, mas sim vários ataques cirúrgicos planeados um de cada vez. "Os líderes da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) foram obrigados a mudar-se da Jordânia para o Líbano, na sequência do atentado em Munique, e estabeleceram-se em Beirute. Yasser Arafat era conhecido por dormir numa cama diferente todas as noites para não ser encontrado", conta Halevi.

Durante a crise com os reféns em Munique, Ehud Barak, à altura comandante das Sayeret Matkal, telefonou ao chefe das secretas militares e disse: "Vocês têm de nos enviar para lá". Isso não aconteceu, mas Barak e as suas forças especiais acabariam por estar envolvidas na mais espetacular operação de retaliação contra o Setembro Negro, em abril de 1973.

A Operação Fonte da Juventude foi planeada desde o início como uma vingança. "Tinha como objetivo punir os que planearam e cometeram este crime, o assassínio dos atletas em Munique", resumiria o vice-comandante das Maktal, Muki Betser. "Havia um sentimento de raiva e uma necessidade profunda de castigar as organizações e, de uma vez por todas, acabar com a chamada luta dos terroristas contra os civis."

"Os três menos fortes de nós iriam vestidos de mulher"

Barak é então encarregado de comandar a operação. A sua primeira ação é a de reunir os comandantes das forças especiais no seu gabinete. Em cima da mesa está uma pasta. O comandante pega nela e retira três fotografias a preto e branco. Uma a uma, vai colocando-as em cima da mesa, enquanto diz em voz alta os nomes dos retratados, para efeito dramático: "Abu Yusuf" — pausa; "Kamal Adwan" — pausa; "Kamal Nasser" — pausa. "A Sayeret Matkal foi encarregada de assassinar estes homens", diz.

O comandante começa então a formular um plano. Primeiro, alguns agentes da Mossad iriam a Beirute alugar carros americanos, como os que os turistas escolhem. Depois, um grupo de 13 homens das forças especiais partiriam de barco até à cidade do Líbano. Ali, passavam para os carros. Chegados à Rue Verdun, onde ficam os apartamentos dos palestinianos, três esquadrões de três homens cada tratariam dos três alvos. Quatro operacionais de um outro grupo ficariam cá fora para lidar com "qualquer tipo de interferência". Terminada a operação, voltariam a sair do país de barco.

Aviram Halevi garante que todos os envolvidos tinham consciência do nível de risco que a operação representava. "Era uma ousadia andar a pé no meio de uma capital do Médio Oriente, a meio da noite, e estar confortável. Mas quebrar limites era o nome do meio das Sayeret Matkal. Era mais sobre 'como fazê-lo', não 'se íamos fazê-lo', sem pensar muito nos riscos." E o método escolhido, diz, era "fora da caixa".

Antes de tudo, porém, a Mossad tem de entrar em ação. Agentes da Cesareia, a unidade de elite do Instituto, vão para Beirute fazer trabalho de campo. Tiram fotografias aos apartamentos, filmam os percursos e observam o bairro. Acabam por definir como melhor lugar para desembarcar a praia do Hotel Sands, por ser privada. Enquanto isso, os soldados das Matkal vão fazendo treinos num estaleiro de obras que encontram no norte de Telavive, simulando o embarque e desembarque e cronometrando as viagens. Numa base militar, constroem circuitos falsos com base na planta dos apartamentos onde planeiam entrar para matar os membros da Fatah.

Mas faltava uma peça essencial no plano: como tornar o disfarce mais convincente? "Não bate certo. Mais de uma dezena de jovens a andar [pelas ruas], todos homens?", questionou um dos militares. Outro arranjou uma "solução", recorda Ehud Barak no seu livro de memórias, "uma que teria o efeito não pretendido de elevar ainda mais a nossa missão no folclore israelita". "Os três menos fortes de nós iriam vestidos de mulher: um tipo com ar de adolescente chamado Lonny Rafael, Amiram Levin e eu."

A espia da Mossad que assegurou o sucesso da operação

Um fator imprescindível para o plano funcionar é a ação de uma mulher, Yael. A Mossad e a Sayeret contaram com o trabalho da agente da Mossad, que já vivia há meses em Beirute. Tinha ali chegado com um disfarce elaborado: fingia ser uma guionista norte-americana que queria fazer um filme sobre Hester Stanhope, uma socialite britânica que tinha vivido no Líbano. Aluga uma casa na Rue Verdun, mesmo em frente aos apartamentos de Abu Yusuf, Kamal Adwan e Kamal Nasser.

A 7 de abril de 1973, Yael vai até ao bar do Hotel Intercontinental para se encontrar com um agente da Cesareia, Eviatar. Os dois seguem para jantar noutro hotel, o Fenício. É ali que Yael transmite toda a informação que recolheu nos últimos tempos, como lhe havia sido pedido pela Mossad: as rotinas dos três homens da Fatah, as ruas que seria preciso atravessar para chegar à Verdun, a atividade policial na área.

Eviatar pergunta-lhe se sabe onde estão os três vizinhos esta noite. "Estão todos em casa", responde a agente. "Boa. Vai direta para casa e mantém-te longe das janelas." À mesma hora em que jantavam, os agentes da Sayeret Matkal estavam a embarcar em direção a Beirute. À saída do restaurante, Eviatar envia uma mensagem via rádio: "Os pássaros estão no ninho", diz, como revela o jornalista Ronen Bergman no seu livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates).

Yael vai para casa e deita-se. Acordaria horas depois com o som de tiros e vozes a falar hebraico nas ruas. "Percebi que estava a decorrer uma operação e liguei isso à informação que tinha passado ao Eviatar horas antes. Eu não era assim tão inocente. Lembro-me de dizer a mim mesma 'Só estou a fazer o meu trabalho'", recordaria a própria décadas depois numa entrevista ao jornal israelita Ynet. O trabalho de Yael foi tão fulcral que Ehud Barak diria mais tarde nunca ter trabalhado numa operação com "tão boas informações, com os pequenos detalhes explicados de forma tão minuciosa".

Mas como decorreu exatamente a operação? Aviram Halevi faz a descrição: "Eles desembarcaram dos botes em Beirute, perto do Hotel Sands, numa zona onde se via as luzes e se ouvia a música. Foram transportados pelos soldados da Flotilha 13, para não molharem os pés e os sapatos, para que parecessem turistas e não pessoas que tinham molhado as calças e os sapatos com água do mar." Ehud Barak sentiria alívio por o mar estar calmo, já que sofria de enjoos.

Entram então em três carros conduzidos por agentes da Mossad e viajam durante dez minutos. Saem num beco. É aí que lhes é dada toda a informação que Yael tinha transmitido. Dividem-se em quatro grupos: três vão aos apartamentos para matar os alvos; um mantém-se cá fora para guardar a porta.

Lonny Rafael, Amiram Levin e Ehud Barak vestem-se de mulher: os dois primeiros com cabeleiras loiras, o futuro primeiro-ministro com uma peruca morena. Outros agentes da Sayeret tratam da maquilhagem deles: batom, eyeliner azul, sombra nos olhos. Os três escondem as armas e os explosivos nas malas e nos sutiãs. Os homens colocam-nas nos bolsos e nos cintos. Caminham todos então pela Rue Verdun, até aos apartamentos.

"Estão a brincar aos cowboys e aos índios"

"Tal como planeado, cada unidade sobe aos andares respetivos. Estão organizados de forma a haver uma pessoa por quarto e uma extra em cada apartamento", conta Halevi. São 11 da noite e, à medida que caminham pela rua, Ehud Barak comenta com o parceiro Muki Betser: "Isto faz-me lembrar Roma". Chegam então aos prédios.

O efeito de propaganda da Operação Fonte da Juventude foi tremendo. Como resume Aaron J. Klein, "os jornais libaneses publicaram relatos de duas lindas mulheres — uma loira, uma morena — a lutarem como bailarinas armadas nas ruas de Beirute, mantendo longe a polícia, o Exército e os operacionais palestinianos com longas rajadas automáticas. As histórias eram muitas. Os mitos cresceram", escreve o jornalista israelita em Striking Back: The 1972 Munich Olympics Massacre and Israel's Deadly Response (sem edição em português). "A mensagem de dissuasão de Israel espalhou-se — a Mossad e os israelitas conseguem apanhar toda a gente, em todo o lado, até nos seus quartos. Muitos argumentam que a Fonte da Juventude ressoou de forma mais poderosa do que qualquer missão anterior da Mossad na Europa."

Na prática, o sentimento de invencibilidade israelita não durou. Meio ano depois da operação, rebentou a Guerra do Yom Kippur, que se revelaria um desastre militar para o país. O próprio Ehud Barak reconheceu que a Fonte da Juventude "contribuiu para uma atmosfera de húbris na liderança, para o sentimento de que não havia problema em atuar sem restrições, porque acontecesse o que acontecesse, podíamos improvisar e ganhar."

Operação Relâmpago

Estamos a 27 de junho de 1976 e os Davidson preparam-se para embarcar numa viagem em família aos Estados Unidos, atravessando o país de costa a costa. Foi um presente para o filho mais velho, Ron, que está prestes a entrar na tropa, e para o mais novo, Benny, que vai fazer o seu Bar Mitzvah. Aproveitando um pacote da Holiday Inn com a Avis e a Air France, a família embarca primeiro para Paris, para aproveitar o desconto. A escolha deste voo vai mudar a sua vida.

O voo 139 que partiu de Telavive leva a bordo 247 passageiros e 12 membros da tripulação. Mas, quando o avião pára em Atenas para reabastecer, acontece algo inesperado.

"De repente, ouvimos um grito muito agudo de uma mulher, vindo da primeira classe", conta o filho mais novo, Benny, que 50 anos depois recorda ao Observador como a viagem desejada foi interrompida pela violência: "Lembro-me de a minha mãe por a mão no joelho do meu pai e dizer 'Uzi, fomos sequestrados'. Assim, de repente, um palpite." Estamos na década de 1970 e o que não falta são voos a serem desviados por grupos terroristas e outros criminosos que procuram chantagear governos para atingirem os seus fins. Sara tinha razão.

Segundos mais tarde, uma hospedeira entra pelo corredor com as mãos no ar. Atrás dela vem uma mulher, que empunha uma arma apontada à cabeça da assistente de bordo e tem na outra mão uma granada. "Este avião foi sequestrado", grita. Dois homens juntam-se a ela, brandindo as armas e gritando "Este avião foi sequestrado, fiquem sentados". "Não imagina o balagan que se instalou", diz Benny, usando a palavra hebraica que significa "confusão" ou "caos". "O avião rebentou em histeria."

"Daqui fala o vosso novo capitão"

O homem que apontou a arma à cabeça do piloto chama-se William Böse. É alemão e faz parte de um grupo chamado Células Revolucionárias. Ele e a mulher, Brigitte Kuhlmann (também ela alemã), fizeram uma parceria com dois membros da Frente Popular de Libertação da Palestina para tomarem conta do avião. O grupo tem como plano inicial desviar o avião para Benghazi, na Líbana. Querem exigir um resgate de cinco milhões de dólares e a libertação de 53 presos palestinianos, 40 deles em Israel.

Já com o controlo do cockpit, Böse dirige-se aos passageiros pelo intercomunicador: "Daqui fala o vosso novo capitão. Fiquem calmos e sentados. Vamos deixar-vos ir à casa de banho, mas têm de perceber que nós temos revólveres e explosivos e vocês não podem fazer nada quanto a isso. Respeitem as nossas ordens e façam o que vos pedimos. Como os explosivos estão na parte da frente do avião, só podem ir à casa de banho lá detrás. Não vos faremos qualquer mal e não vamos matar-vos. Façam o que dizemos, obedeçam às nossas ordens. Dar-vos-emos mais instruções em breve", conta o historiador Saul David, no seu livro Operation Thunderbolt (sem edição em português). Uma criança que segue a bordo do avião, Shay Gross, pergunta nesse momento: "Mãe, morrer dói?"

Os abraços e apertos de mão entre Idi Amin e os terroristas

Enquanto o sequestro se desenrolava, os detalhes do que se passava a bordo do voo 139 chegavam ao Conselho de Ministros israelita.

"Há 230 passageiros", diz o primeiro-ministro Yitzhak Rabin aos colegas, enquanto acende um cigarro. "Pelo menos agora sabemos onde estão. Mas há três coisas cruciais que não sabemos. Não sabemos se Benghazi é o seu destino final. Não sabemos quem são os sequestradores. E não sabemos quais vão ser as suas exigências."

À medida que o avião se aproxima do seu novo destino, William Böse faz uma nova comunicação aos passageiros: "Senhoras e senhores, agradecemo-vos por terem voado com a Air France. Esperamos que tenham ficado satisfeitos com o serviço e que voltemos a vê-los em breve nesta companhia." São cinco da manhã e o avião aterra em Entebbe, no Uganda.

"Uganda, bom sinal, temos boas relações com Idi Amin", comentam alguns israelitas a bordo. Outrora, o sanguinário líder africano fora bem recebido em Israel, que deu treino aos seus soldados. Mas os tempos já não são os mesmos. "Desembarcámos e vimos que ao pé das escadas havia duas filas de soldados ugandeses armados dos pés à cabeça", recorda Benny Davidson. "E depois vimos os nossos quatro terroristas a juntarem-se a outros cinco ou seis que estavam lá em baixo. Vimos Idi Amin e a sua entourage a trocarem abraços e apertos de mão com os terroristas."

Os reféns são levados para o antigo terminal do aeroporto de Entebbe. Ao fim de duas horas, chega uma equipa do Hotel Lake Victoria, carregada com tabuleiros de arroz, caril e bananas.

Lá fora, na pista, estão dois aviões de combate modernos da Força Aérea do Uganda — dois MiGs —, talvez para intimidar os reféns. E, às seis da tarde, o próprio Idi Amin vem falar diretamente ao grupo. "Shalom", começa por dizer o homem imponente, de 1,93m de altura. "Acho que alguns de vocês me conhecem. Para os que não conhecem, sou o marechal de campo Dr. Idi Amin Dada, o homem responsável por vos permitir sair do avião", continua.

Os sequestradores decidem então dividir os reféns em dois grupos, com base nos seus passaportes: judeus para um lado, não-judeus para o outro. Os últimos são libertados — com exceção da tripulação, que faz questão de ficar com os reféns judeus. "Demorámos um pouco a perceber que estávamos perante uma seleção. Eu tinha só 13 anos, mas conhecia bem a História. A família da minha mãe é de Lodz, na Polónia, e morreu quase toda em Treblinka", reflete Benny, que diz não esquecer "o choque de ver dois terroristas alemães a fazer uma seleção 30 anos depois da II Guerra Mundial". Quando as notícias chegam a Telavive, o Governo fica em choque. "Meu Deus, vamos ter um pequeno Holocausto", desabafa o ministro da Defesa e futuro primeiro-ministro Shimon Peres.

Um primeiro-ministro com medo de ser enforcado

É então que a Mossad entra em ação.

A Cesareia, unidade de elite do Instituto, manda dois dos seus agentes, que têm formação como pilotos, alugarem um Cessna. Estes fazem um voo a partir de Nairobi, no Quénia, até Entebbe. Circulam por cima do aeroporto e tiram todas as fotografias que conseguem: da pista, dos edifícios do terminal, dos MiGs ali estacionados. Aterram no aeroporto e um deles sai para falar com os controladores aéreos. Diz ser um caçador inglês, com base num país da África Central. Conversam alegremente sobre "a confusão dos últimos dias" no aeroporto e até bebem um copo.

Doze horas depois, são levadas ao primeiro-ministro as fotografias e todas as informações recolhidas pelos seus pilotos. Rabin começa a ganhar esperança: "Era mesmo isto de que precisávamos. Isto são informações para uma operação", comenta.

Ao mesmo tempo, o Governo israelita tinha mandado responsáveis a França com a missão de entrevistar os reféns que tinham sido libertados. Estes descrevem o interior do terminal, a localização dos soldados e os terroristas.

Com toda esta informação, o diretor da Mossad, Yitzhak Hofi, fala ao Conselho de Ministros e defende que é possível montar um plano de resgate semelhante ao da captura de Adolf Eichmann, o criminoso nazi raptado pela agência na Argentina. O momento é contado por Gordon Thomas em Os Espiões de Gedeão (Ed. Prefácio): "Se deixarmos o nosso povo morrer, isso vai abrir as comportas. Nenhum judeu estará a salvo. Hitler terá conseguido uma vitória da campa", argumenta. "Muito bem. Vamos tentar", responde-lhe o primeiro-ministro.

É convocada uma unidade das forças especiais da Sayeret Matkal. Cinco militares — Dan Shomron, Joshua Shani, Avi Einstein, Muki Betser e Yonathan Netanyahu — examinam as fotografias tiradas pelos agentes da Mossad. A Sayeret Matkal elabora um plano: a unidade viajará até Entebbe em quatro aviões de carga C-130, conhecidos como Hércules, que vão parar para abastecer no Quénia, a meio do caminho. Quando aterrarem, um Mercedes preto — igual ao usado por Idi Amin — sairá de um dos aviões, acompanhado por jipes, para enganar os terroristas e fazer parecer que quem ali está é o líder ugandês. Depois, os militares usarão o elemento-surpresa para um raide.

O chefe de gabinete do primeiro-ministro visita-o para perceber qual a sua opinião sobre o plano. "Amos, estive a pensar neste plano toda a noite e vou dar a minha aprovação", diz-lhe Rabin. "Os pilotos demonstraram que conseguem aterrar no escuro e que o elemento-surpresa é possível. Também estou contente porque o aeroporto não está cheio de explosivos. Acho que vale a pena o risco", conclui. À saída, Rabin leva Amos Eiran ao elevador e pede-lhe que escreva uma carta de demissão em seu nome, para o caso de a operação falhar. "Qual é a tua definição de falhanço?'", pergunta-lhe o chefe de gabinete. "Se 25 morrerem, considero que a operação falhou e assumo a responsabilidade. Se forem menos do que isso, considero-a um sucesso." As hipóteses, diz, são de 50-50.

Aprovado o plano por unanimidade em Conselho de Ministros, Rabin senta-se sozinho no seu escritório. É informado de que os militares já estão a caminho do Quénia. "Assim seja", responde o primeiro-ministro enquanto bebe um whisky. "Não posso fazer mais nada." Anos mais tarde, a sua filha lembrar-se-ia da frase que o pai disse à mãe nessa noite: "Amanhã, ou sou um rei ou vou ser enforcado na praça da cidade."

Um Mercedes, uma oração e um soldado caído

Em Entebbe, os dias vão passando lentamente para os reféns. São preenchidos com jogos de cartas e de gamão, lendo livros e conversando.

Benny Davidson está precisamente a lançar os dados durante um jogo com o irmão Ron quando comenta: "Hoje, à meia-noite, vão chegar as IDF". "Tive um palpite. Era a ilusão de um miúdo, um pensamento romântico, não sei, não consigo explicar", tenta agora enquadrar, anos depois. "Mas eu estava errado. Eles não chegaram à meia-noite — chegaram às onze da noite."

Pouco tempo antes disso, os Hércules já tinham atravessado o Mar Vermelho a baixa altitude, para não serem detetados pelos radares. A bordo, o comandante Yonathan (Yoni) Netanyahu — irmão do futuro primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — faz um discurso motivador e diz aos colegas que existe "uma responsabilidade mútua entre todos os judeus para se ajudarem uns aos outros".

Quando o avião onde seguia aterra, o soldado Amir Ofer engatilha a sua arma. Um colega reage de imediato: "Não engatilhes a arma dentro do avião!" O militar responde-lhe: "Cala-te, isto é uma guerra a sério". Aterrados os aviões de carga, o Mercedes preto avança para a pista. "Havia um silêncio e uma escuridão totais, mais negros do que o negro, na pista enorme e vazia", recordaria um dos soldados ao jornalista Ronen Bergman no livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates). "Só pensei para mim 'Mãezinha, isto é assustador'."

O Mercedes e os jipes avançam sem dificuldade pela pista. Quando chegam perto dos primeiros guardas, os militares matam-nos rápida e silenciosamente. E continuam a avançar em direção ao terminal, sem alertar nem os soldados ugandeses, nem os terroristas alemães.

Dentro do terminal, Benny está deitado num colchão, no chão, a tentar dormir. Ao seu lado, a mãe e o irmão jogam bridge com um casal, enquanto o pai lê um livro sobre a II Guerra Mundial. Benny está quase a adormecer quando ouve o estrondo das janelas de vidro a partirem-se com os tiros. A mãe atira-se para cima dele de imediato, a protegê-lo das balas com o seu próprio corpo. E começa a ouvir o filho a recitar uma ladainha, ininterruptamente. Benny está a rezar a oração Shema Yisrael — "Deus é o Senhor, Deus é o nosso pai" —, acrescentando "Deus, por favor, salva-nos, não nos deixes morrer".

Durante a troca de tiros, três dos terroristas são imediatamente mortos. Quando o tiroteio dentro do terminal cessa, o soldado Amos Goren entra e fala aos reféns: "Olá. Peguem nas vossas coisas, os outros soldados estão à vossa espera na pista."

"Aquilo que tinha sido a nossa casa durante quase uma semana tornou-se num banho de sangue em poucos minutos", recorda Benny. "Vi coisas que nenhum rapaz de 13 anos devia ver." Aturdido, segue com a família lá para fora, para a pista, todos de mãos dadas. "Lembro-me de ouvir explosões nas minhas costas. Então olhei por cima do meu ombro direito e vi os MiGs da Força Aérea ugandesa a explodirem, a acenderem-se como velas, um atrás do outro."

A missão está a ser um sucesso do ponto de vista do resgate, mas deixa atrás de si um rasto de sangue. Dois reféns, Pasco Cohen e Ida Borochovich, são apanhados no fogo cruzado. Um terceiro, Jean-Jacques Mimouni, é morto por engano quando se levanta repentinamente para saudar os militares israelitas. Uma quarta refém que tinha sido levada para o hospital dias antes, Dora Bloch, será assassinada mais tarde por ordens do próprio Idi Amin, em retaliação pela operação. E um dos militares, o páraquedista Surin Hershko, fica ferido — a bala que o atinge na coluna deixá-lo-á paralisado do pescoço para baixo o resto da vida.

Mas há uma baixa que deixa os militares particularmente abalados. Quando a maioria já está dentro dos aviões, um soldado pega no rádio para informar os colegas: "O Yoni foi abatido, o Yoni foi abatido". O comandante da Operação Relâmpago tinha sido morto a tiro.

Quando os Hércules param em Nairobi para reabastecer, Ehud Barak — que estava a supervisionar a operação a partir do Quénia — entra a bordo. Os reféns, contaria mais tarde, estão "efervescentes". Os combatentes, cansados, não conseguem festejar, porque ainda têm na cabeça a notícia da morte do comandante. Barak aproxima-se do corpo de Yoni Netanyahu, que segue a bordo de um dos aviões. "O seu rosto estava branco. Era um jovem muito bem parecido", contaria ao The Guardian o homem que seria eleito primeiro-ministro mais tarde. "Pus a minha mão na testa dele: ainda estava quente. Só tinha passado uma hora desde a morte dele. Tinha uma expressão meio serena, não transmitia qualquer tipo de sofrimento."

Quando as notícias do sucesso da missão chegam a Telavive, o ministro da Defesa Shimon Peres dá instruções ao militar que faz a ponte com o regime de Idi Amin para transmitir ao marechal de campo ugandês uma mensagem enigmática. Borka Bar-Lev telefona então ao líder africano. A conversa é a seguinte:

"— Daqui fala o Presidente Amin.
— Muito obrigado. Quero agradecer-lhe pela sua colaboração, agradecer-lhe muito.
— Mas eu fiz alguma coisa?
— Os meus amigos que têm boas ligações ao Governo pediram-me para lhe transmitir quão gratos estamos pela sua colaboração. Não sei o que querem dizer com isso, mas imagino que você saiba.
— Não sei de nada, acabei de chegar. Vim à pressa das Maurícias para resolver este problema, antes que o ultimato expire amanhã."

Idi Amin ainda não sabia nada do que tinha acontecido em Entebbe nessa noite.

"Sentia-me culpado porque eu tinha sobrevivido e ele não"

Os soldados e reféns seguem a bordo dos Hércules e, quando começam a sobrevoar espaço aéreo israelita, celebram. Alguns choram. Eran Dolev, um dos médicos da missão, decide recorrer ao humor para lhes dar as boas-vindas: "Tenho de vos dizer que na noite passada Israel introduziu pela primeira vez IVA de 8%", diz pelo intercomunicador. "Se não gostam, são livres de voltar para Entebbe." Gargalhada geral.

No aeroporto Ben-Gurion aguarda-os uma comitiva de Estado que inclui o primeiro-ministro, Yitzhak Rabin, de camisa branca e óculos escuros, e o ministro da Defesa, Shimon Peres. Quando os aviões aterram, os reféns finalmente desembarcam. À sua frente têm uma enorme multidão entusiasmada, que grita por eles e os aplaude. As famílias estão à sua espera, em lágrimas, numa outra zona para onde são levados de autocarro.

Os Davidson também saem do autocarro atordoados. O primeiro-ministro Rabin chama então à parte o pai da família, Uzi, e diz-lhe que tem a transmitir cumprimentos sentidos do seu pai, que defendeu até ao fim que os reféns fossem resgatados. Uzi, que até então tinha sido o rosto estóico da contenção, afasta-se do primeiro-ministro e desfaz-se em lágrimas.

O páraquedista Surin Hershko não morreu, mas a sua lesão deixou-o sem mobilidade em todos os membros, capaz de comunicar apenas através de um computador que controla com uma longa palhinha.

Benny Davidson tinha apenas 13 anos à altura e o que aconteceu em Entebbe afetou-o profundamente. "As ações instintivas dos meus pais demonstraram-me que, mesmo quando somos colocados em perigo numa situação caótica, de terror, há coisas que podemos fazer para voltar a ter pelo menos um controlo mínimo da situação. Seja tomar um Valium ou baixarmo-nos na cadeira", ilustra. "O principal propósito do terrorismo é tirar-nos a liberdade e aterrorizar-nos para sentirmos que não temos qualquercontrolo." Dez dias depois de regressarem de Entebbe, os Davidson embarcaram noutro avião em direção aos Estados Unidos — desta vez, num voo direto.

Operação Irmãos

O panfleto de cores vivas deixa uma garantia: "Arous no Mar Vermelho, um maravilhoso mundo à parte." Ali informam-se os turistas de que este "centro recreativo de mergulho e deserto" tem "algumas das águas mais límpidas do mundo" e "paisagens de tirar a respiração, com céus em fogo com milhões de estrelas". Foi distribuído por várias agências de viagem, ao longo da década de 1980, e trouxe ao resort de Arous muita clientela.

Aquilo que não era sabido pelos clientes é que por trás da gestão deste complexo turístico estava uma das maiores agências de espionagem do mundo. Durante cinco anos, a Mossad manteve em funcionamento uma unidade hoteleira no Sudão que, para além dos luxuosos quartos, fornecia aos hóspedes aulas de mergulho e outras atividades. Era apenas mais uma fonte de rendimento para a agência israelita? Não exatamente. Arous era uma elaborada fachada para a Operação Irmãos, em que vários agentes do Instituto mantinham um trabalho de dia num resort e outro à noite, resgatando pela calada milhares de judeus etíopes e transportando-os para Israel.

Tudo começa com um homem. Farede Aklum é um jovem professor de 30 anos assediado pelas autoridades da Etiópia pelo seu judaísmo, que suspeitam estar ligado a atividades de espionagem. A comunidade de judeus no país, conhecida como Beta Israel, já há muito que vive sob pressão. Mantendo a crença de que descendem diretamente do Rei Salomão e da Rainha do Sabá, os judeus etíopes sempre cumpriram as práticas do judaísmo bíblico e sentem-se como estranhos na sua terra.

Farede decide partir para o país vizinho, o Sudão de maioria muçulmana, com um objetivo: obter ajuda da Mossad para fugir de África. Como ele, milhares de judeus partiram antes para fugir à guerra civil na Etiópia e vivem agora aglomerados em campos de refugiados no Sudão. Depois de uma dura caminhada de quase 500 quilómetros, ao longo de vários dias, o jovem chega ao seu destino e entra em contacto com uma organização suíça. O seu pedido acaba por ir parar à secretária de um homem — Danny Limor, agente da Mossad.

A chegada do telegrama coincide com uma decisão tomada pelas altas instâncias israelitas: "Traz-me os judeus da Etiópia", pediu o primeiro-ministro, Menachem Begin, ao diretor da Mossad, Yitzhak Hofi. Limor é então escolhido para contactar Farede Aklum e dar início à Operação Irmãos. "Dei-lhe esse nome por causa da relação que eu e Farede estabelecemos", revela ao Observador o próprio Danny Limor, mais de 40 anos depois.

Quando a operação tiver chegado ao fim, Danny terá ajudado a transportar secretamente mais de sete mil judeus etíopes para Israel.

Arous, um oásis de camas feitas de lavado e cozinha equipada

Danny e Farede começam a percorrer os campos de refugiados do Sudão, a tentar identificar os judeus etíopes e a contabilizá-los. À noite, organizam operações clandestinas para levar alguns deles para o Mar Vermelho, de onde são levados até Israel em barcos. Ao mesmo tempo, o jovem professor começa a enviar mensagens para a Etiópia a dizer a outros judeus para virem para o país, onde garante que serão ajudados. Eles começam a vir.

"Quando começámos a chegar aos milhares, percebi que não podíamos continuar. Já tínhamos quatro carros a fazer as viagens de ida e volta, mas começámos a chegar ao gargalo, não havia mais espaço. Os números eram demasiado elevados", recorda Danny. Até que, um dia, a solução apresenta-se à frente dos seus olhos. Enquanto palmilha a costa à procura de praias onde os etíopes possam embarcar, encontra um conjunto de pequenas casas de telhado vermelho. "Havia um beduínio a guardar o local e ele explicou-me que isto era um resort que fora construído por uns italianos anos antes, mas que tinham ido à falência."

Lá dentro, tudo está intocado. Camas feitas de lavado, cozinhas equipadas, um gerador que pode ser reparado, barcos e equipamento de mergulho. "Era o sonho molhado de qualquer tipo que está a fazer trabalho clandestino", diz Danny com um sorriso. "Se tomássemos conta do sítio, tornava-se a nossa base e tínhamos uma desculpa para a nossa presença." Sem mais demoras, Danny faz os contactos certos e consegue uma autorização para gerir o resort de Arous e começar a receber turistas. A partir dali, começa durante a noite a levar os judeus etíopes para a praia.

Yola, a hospedeira que arranja vegetais, cerveja e equipamento de mergulho

Para ajudar na operação, o Instituto decide mandar outro agente para o Sudão. E Danny pede expressamente que seja uma mulher, já que uma unidade hoteleira gerida inteiramente por homens chamaria a atenção. A escolhida não é uma agente veterana da Mossad, mas sim uma simples hospedeira de bordo: Yola Reitman impressionou os coordenadores da Mossad e, depois de ter passado com sucesso em vários testes, parte para o resort no Mar Vermelho.

Assim que chega, Yola — ou melhor, Angela, o seu nome de código — começa a trabalhar para colocar Arous a funcionar. Compra um congelador e trata de importar carne e queijos, com o resto da comida a ser comprada localmente. Contrata três cozinheiros, vários empregados, um condutor e mulheres para limparem os quartos, enquanto agentes da Mossad que se fazem passar por técnicos vão instalar sistemas de ar condicionado. Ao mesmo tempo, Danny compra barcos a motor, caiaques, camiões e um jipe Toyota. Os instrutores de mergulho são, na verdade, membros da Flotilha 13, um dos comandos navais mais especializados de Israel.

Yola não tem dúvidas de que é essencial na operação. "A presença de mulheres normaliza as situações. Um grupo só de homens é inconscientemente associado a um gangue ou a um exército", comentaria anos depois com Chloé Aeberhardt, autora do livro Les Espionnes Racontent (sem edição em português). Danny confirma que Yola era "a única da equipa capaz de gerir aquele resort". "Ela ia buscar todos os mantimentos a Porto Sudão, os vegetais e a fruta frescos. Os nossos clientes — italianos, alemães, britânicos, franceses — não conseguiam sobreviver se não bebessem cinco litros de cerveja por dia. E nem estou a contar com o whisky à noite", afirma entre risos. "Este era um país muçulmano, o álcool é proibido. Mas ela conseguiu arranjar um amigo no duty free do porto que comprava álcool aos marinheiros."

"Lembro-me que o dinheiro começou a entrar", recordou Yola num documentário do Smithsonian. "Enviei um telegrama para o quartel-general: 'Estamos ricos!' Estava completamente entusiasmada pelo quão bem sucedidos estávamos a ser."

Um hóspede curioso demais e uma emboscada na praia

Mas a vida em Arous não é só feita de bons momentos.

Danny Limor lembra-se bem de Henry Gold, um judeu canadiano que está hospedado no resort e que começa a mencionar que os donos do espaço talvez sejam também judeus. "Um colega meu chegou ao pé de mim e disse-me 'Olha, este tipo sabe que somos israelitas, porque cortamos a salada muito fininha'", conta o agente ao Observador.

"Então levei-o à costa e disse 'Vamos fazer um mergulho noturno'. Depois apontei para um ponto na água e disse: 'Ali há um recife especial com tubarões que adoram comida kosher. E é assim que tu vais morrer'", continua a relatar o espião. Depois de longos minutos em que Gold implora misericórdia e garante que nunca contará a ninguém quem são os verdadeiros donos de Arous, Danny deixa-o ir embora, com uma ameaça: "Não tentes fazer nada, senão todas as manhãs vais ter de olhar para debaixo do teu carro, porque podes ter um presente especial'."

Este não é o único susto que os agentes da Operação Irmãos apanham. Uma noite, enquanto realizam o transbordo de 200 judeus etíopes numa praia, são surpreendidos por militares sudaneses que pensam ter encontrado contrabandistas e que começam a disparar. Danny insurge-se, sem nunca deixar cair o disfarce: "Vocês são loucos? Isto são turistas, estamos aqui a mergulhar!". Depois de mencionar o nome de um comandante da Marinha sudanesa, os militares acreditam que estão perante trabalhadores do resort e os seus hóspedes. "Numa noite sem luar não se consegue ver a cor da pele, somos todos escuros", reflete Danny. "Eu disse que aquelas pessoas eram brancas e eles nunca perceberam que estavam perante africanos. Sem luar, pode-se dizer o que se quer."

O risco, porém, está a aumentar e a Mossad sabe-o. O número de refugiados etíopes é de tal forma esmagador que, a certa altura, a agência decide começar a usar aviões de carga para transportar os judeus, em vez de barcos. As aeronaves aterram mais perto do resort e poupam as viagens de jipe até à praia. Não tarda até Danny e os colegas conseguirem retirar 500 a 600 pessoas por noite, engrossando os números.

Mas tudo tem um fim e também a Operação Irmãos terminou, substituída pela Operação Moisés, que passou a retirar os refugiados etíopes em voos aéreos regulares para Bruxelas (de onde seguiam depois para Israel), com ajuda dos Estados Unidos. Os agentes de Arous escapuliram-se durante uma noite. "Havia clientes no resort, quando acordaram de manhã não estava lá ninguém… Foi assim que acabou", relata o comandante.

"Quando estás a trabalhar, estás sempre a mentir"

Ao longo dos anos em que a Operação Irmãos durou, milhares de judeus etíopes chegaram a Israel, colocando um enorme desafio de integração. Sem saber a língua, muitos tinham dificuldade em adaptar-se a um novo país. Os incidentes racistas foram surgindo. A sensação de serem cidadãos de segunda até para o próprio Estado foi-se agudizando com acontecimentos como um escândalo de 1996, revelado por um jornal, que dava conta de que sangue doado por judeus etíopes tinha sido deitado fora por se considerar que havia maior risco de serem portadores de HIV. Os desafios para a segunda geração em Israel ainda hoje são muitos.

Já a contribuição da operação para o mito da Mossad foi enorme. Como resumiu o agente Gad Shimron, "que outro país desenvolvido estaria disponível para investir dezenas de milhões de dólares para criar uma infraestrutura operacional de atividades secretas num país inimigo, envolvendo grandes forças militares, para salvar uns milhares de refugiados esfomeados de um país africano destroçado pela guerra civil?" Danny Limor considera que é precisamente o caráter humanitário da operação que a torna diferente de todas as outras: "Estávamos a lidar com vidas humanas. Crianças, mulheres grávidas, velhos, pelos quais éramos responsáveis. Isso é qualquer coisa."

O preço a pagar para os agentes envolvidos, como em tantas outras operações, foi o de terem de lidar com uma identidade dupla. "Eu voltava a casa de vez em quando para a minha mulher e para as minhas filhas e era como ter de ligar um interruptor na cabeça. Porque, quando estás a trabalhar, estás sempre a mentir. A mentir sobre a tua identidade, sobre ti próprio", reconhece Danny. Já com os superiores é preciso ser 100% honesto. Não por acaso, um dos testes da Mossad, revelado pela Der Spiegel, envolve exigir aos recrutas uma tarefa impossível — tocar no centro de um círculo com os olhos fechados, sem pestanejar —, para avaliar quem é sincero e admite que não consegue e quem mente.

Para sobreviver numa missão como esta, diz Danny, o truque é "mantermo-nos sempre nós próprios". "Quando nos barbeamos de manhã e olhamos para o nosso rosto, ou quando nos vamos deitar, pensamos no que fizemos, no que vamos fazer amanhã e no dia a seguir a esse. E há uma coisa que se mantém inalterável: quem somos e por que fazemos isto."

Quanto ao resort de Arous, depois de os espiões da Mossad partirem foi ocupado pelo Exército sudanês e usado como depósito de armas. Mais tarde, foi comprado por um empresário do Sudão, que revitalizou a unidade hoteleira. Durante esse período, em 1991, teve um hóspede especial durante duas semanas, um homem que havia fugido da Arábia Saudita e que ali se instalou temporariamente. O seu nome era Osama Bin Laden.

O falhanço de Amã

O homem está sentado à beira da piscina do Hotel Intercontinental em Amã, na Jordânia, a ler À Espera no Centeio, quando a mulher morena se aproxima e lhe diz uma coisa ao ouvido. Mishka Ben-David percebe que algo correu mal com a operação na qual está a participar. Teve como missão carregar o tempo todo o antídoto da substância usada para matar o alvo, que serve como seguro de saúde caso algum dos colegas seja atingido por ela.

Neste momento, pensa em destruí-lo. Contacta os superiores só para confirmar as suas intenções, mas a resposta que recebe do outro lado surpreende-o: "Vai para o lobby, onde um capitão dos serviços de informação da Jordânia vai estar à tua espera para ir contigo ao hospital, onde os médicos também estão à espera." Afinal, o antídoto não servirá para salvar um companheiro, mas sim o próprio alvo: Khaled Mashal, vice-presidente do bureau político do Hamas.

Quase 30 anos depois, Ben-David recorda ao Observador aquela tarde, sentado num dos sofás da sua casa no campo, em Israel, onde se ouvem os pássaros e um relinchar pontual de um dos seus muitos cavalos. Não tem grande vontade de voltar a falar da história de Mashal, que já dissecou inúmeras vezes ao longo da sua vida, embora aceda relutantemente ao pedido. Ocupa grande parte da conversa, no entanto, a recordar o seu percurso na Mossad.

"Estava a dar aulas na Universidade como professor assistente e decidi que não queria fazer isso o resto da vida. Não era suficientemente entusiasmante", reconhece. Considera regressar ao Exército, onde tinha cumprido o serviço militar obrigatório no Egipto, durante a Guerra do Yom Kippur. Mas, um dia, encontra um anúncio de emprego num jornal que o intriga. "Uma agência governamental procura oficiais do Exército e académicos com um bom domínio de línguas estrangeiras." Ben-David, que fala fluentemente russo por ser filho de refugiados ucranianos, suspeita de imediato que se possa tratar da Mossad e decide responder ao anúncio.

É então chamado para uma entrevista num apartamento em Telavive. "Quem achas que somos?", perguntam-lhe. "Acho que vocês são a Mossad. E, se não forem, não me voltem a telefonar." Os futuros empregadores não confirmam ser dos serviços secretos, mas voltam a telefonar a Mishka. E é assim que arranca o seu processo de formação como espião.

"Quero as cabeças deles, quero-os mortos"

Em 1997, um bombista suicida do Hamas fez-se explodir num mercado de Jerusalém, matando 16 pessoas e ferindo outras 160.

O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, reúne-se com responsáveis da Mossad para pensar numa possível retaliação. "Vou apanhar esses sacanas do Hamas, nem que seja a última coisa que eu faça", diz-lhes. "Quero as cabeças deles, quero-os mortos. Não quero saber como é que o fazem, só quero que seja feito. E quero que seja feito já." Ao longo dos dias seguintes, o diretor da Mossad, Danny Yatom, vai pensando nos possíveis alvos, sempre sob pressão do primeiro-ministro.

A sugestão do alvo apresentada pelo diretor da Mossad não é bem recebida por Netanyahu, que diz querer a cabeça "de um líder", não "de um mercador". Sugere Khaled Mashal, o homem do Hamas que vive atualmente em Amã, na Jordânia. O local assusta Yatom, já que a Jordânia e Israel mantêm boas relações que podem ser postas em causa com uma operação naquele território. "Desculpas, só me dás desculpas!", responde Bibi. O diretor cede.

Começa então a discussão sobre qual o melhor método para eliminar Mashal. Hipóteses: colocar uma bomba no seu carro, matá-lo à queima-roupa, recorrer a um sniper. Mas o primeiro-ministro quer algo silencioso e discreto. A escolha recai sobre um veneno raro, o levofentanil, desenvolvido num programa secreto do Instituto de Pesquisa Biológica. É cem vezes mais potente que a morfina. Numa autópsia, só seria detetado se fosse pedido um exame específico àquela substância. Dentro da Mossad, chamavam-lhe "a poção dos deuses".

Um assassinato com uma Coca-Cola e um spray

A operação para matar Khaled Mashal está em curso, mas a preparação é feita à pressa. A equipa só tem tempo para fazer um dia de vigilância e, por isso, não sabe que às vezes o líder do Hamas, quando sai de manhã, leva os filhos à escola. É precisamente isso que acontece no dia da tentativa de assassinato, mas ninguém repara nas crianças no banco de trás.

Às 10h35 da manhã, o carro de Mashal sai de casa com um automóvel da Mossad atrás. Pára no Centro Shamiyeh, onde fica o seu escritório, e os dois operacionais da Mossad com identidades falsas canadianas saem do carro para ir atrás dele. Não levam consigo qualquer meio para contactarem os colegas. Caminham na direção de Mashal.

O plano é o de se aproximarem e, quando estiverem mesmo atrás dele, um dos agentes abrir uma lata de Coca-Cola. O barulho servirá para distrair e permitir ao outro usar um spray para lhe colocar o veneno na parte de trás do pescoço. Mas nada corre como o previsto.

Quando já estão próximos do alvo, a filha de Khaled Mashal sai de repente do carro, gritando "Pai, pai!". O primeiro agente já tinha agitado a Coca-Cola. Mashal vira-se para ver a filha e, nesse momento, vê o outro homem a pulverizar o veneno na sua orelha. O motorista de Mashal, que assistiu a tudo, começa a chamar pelo patrão. O homem do Hamas, que viu de frente o agente que o tentou assassinar, começa a sentir-se tonto. "Senti um choque elétrico forte no meu ouvido", contaria depois sobre esse momento. Várias pessoas começam a juntar-se à sua volta e uma delas chama uma ambulância.

Os operacionais da Mossad correm para o seu carro, um Hyundai verde com a matrícula 5374. Mas no seu encalço segue Mohammed Abu Saif, o motorista de Mashal, que assistiu a tudo. A certa altura, os dois agentes saem do carro e continuam a fuga a pé. Saif sai também do seu carro, corre e acaba por apanhá-los. Começam a lutar no meio da rua, chamando a atenção. Uma multidão acorre e a polícia é alertada. "Shawn Kendall" e "Barry Beads" são detidos.

O chefe da Mossad, Danny Yatom, voa de imediato para Amã. Pede uma audiência com o Rei Hussein, que o recebe. "Fomos nós que fizemos isto. Ele vai morrer daqui a 24 horas. Pulverizámo-lo com um veneno químico. Não podemos fazer mais nada", diz-lhe. O Rei fica furioso.

Khaled Mashal acaba por receber o antídoto e sobreviver, enquanto os dois agentes da Mossad detidos são libertados.

Mishka Ben-David regressa a casa. Chega, toma um banho e sai de imediato para o Bat Mitzvah da filha de uns amigos. "Estávamos no lindo jardim deles, com toda a gente a passear o seu champanhe, incluindo amigos meus que não faziam ideia de que eu era da Mossad", conta. "E eles começaram a dizer-me 'ouviste falar daqueles…' — não sei usar a palavra certa em inglês, mas em iídiche há uma palavra, schlemiel, que descreve uma pessoa trapalhona ou tonta — 'ouviste falar daqueles schlemiels da Mossad?'"

Quanto a Khaled Mashal, recuperou inteiramente da tentativa de assassinato. "Espero o martírio a qualquer altura, mas a decisão de como e quando é que morro pertence a Deus, não à Mossad", afirmou. Dois anos depois, foi expulso pela Jordânia e refugiou-se no Qatar. Continuou a ser uma figura influente do Hamas — recentemente, em 2024 e 2025 fez vários comentários sobre a guerra em Gaza, prometendo que o Hamas iria renascer das cinzas "como uma fénix" e apelando aos palestinianos da Cisjordânia para que se tornassem bombistas suicidas. Em 2025, estava na sede do Hamas no Qatar quando esta foi atingida por ataques aéreos israelitas; Khaled Mashal sobreviveu e voltou a escapar a Israel.

Dois anos depois da operação na Jordânia — e na sequência de vários inquéritos internos —, Mishka Ben-David abandonou a agência, por a sua identidade ter sido exposta publicamente. Dedicou-se aos cavalos e aos livros, mas nunca conseguiu largar inteiramente o mundo em que esteve imerso. A sua obra mais recente é tão parecida com aquilo que viveu na tentativa de assassinato de Khaled Mashal, que se limitou a fazer pequenas alterações — em vez de um membro do Hamas o alvo é do Hezbollah, a ação passa-se em Beirute e não em Amã, a arma do crime não é veneno, mas sim uma pistola. Até o motivo pelo qual a operação falhou é semelhante: o agente decide não disparar quando a filha do alvo se aproxima do pai.

Operação Beeper Anjo da Morte

Avner Azoulay, antigo diretor do departamento da Mossad no Líbano, lembra-se da conversa que teve com o guia quando aterrou. "O que é que é barato aqui?", perguntou ao homem. "A vida humana. Essa é a coisa mais barata", respondeu o guia.

A Mossad contribuiria para isso. E não há exemplo mais claro da violência da agência em território libanês do que o que aconteceu naquela tarde de setembro de 2024. São exatamente 15h30. À mesma hora, por todo o país — com especial foco em Beirute, bastião do Hezbollah —, centenas de pagers explodem. Os que os têm nas mãos ou guardados nos bolsos ficam com ferimentos graves, que levarão a que percam dedos, mãos e braços. Alguns ficarão cegos. A intensidade das explosões afetará outros nas redondezas, como um homem que estava a escolher ameixas no mercado. Ao todo, nove pessoas, a maioria membros do Hezbollah, morreram. 2.750 ficaram feridas.

Quando o Observador fala com o antigo espião da Mossad Avner Avraham sobre este tema, ele começa a conversa com uma piada: "Deixe-me só desligar o meu pager", diz, com um ar misterioso, para depois soltar uma gargalhada. Aquilo que tem na mão não é um pager verdadeiro, mas uma réplica dos que explodiram. Fez questão de o trazer consigo para ilustrar a missão, que considera ter sido uma das mais bem sucedidas do Instituto. "Vai concordar comigo que esta operação dos pagers mudou tudo", sentencia.

Uma empresa de fachada que vende 15 mil walkie talkies e pagers ao Hezbollah

A operação demorou anos a ser preparada. A Unidade 8200 — a agência especializada em interceção de comunicações — criou equipas para monitorizar o Líbano. Vários drones foram usados para fotografar as instalações do Hezbollah ao longo dos anos e homens e mulheres foram enviados para obter informações no terreno. Segundo o New York Times, agentes da Mossad infiltraram-se no Hezbollah e foram passando informações sobre os locais relevantes do grupo. Beneficiaram do facto de o Hezbollah ser um grupo terrorista que está camuflado na sociedade libanesa, o que facilita o acesso. E procuraram informações em fontes improváveis, como os obituários de membros do grupo e participando nos seus funerais. O Instituto recolhia informações até dos dados registados pelos smart cars dos membros do Hezbollah e registava toda a informação numa base de dados, estabelecendo as rotinas dos operacionais do grupo.

Uma das fontes mais relevantes em todo este processo foi um espião que subiu dentro da organização e chegou a segurança pessoal do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. O Jerusalem Post conta que o homem — cujo nome de código é M.Sh. — não era cidadão israelita e usava o disfarce de homem de negócios.

O método de recorrer a meios eletrónicos como pagers para atingir operacionais do Hezbollah não foi novo. Já em 1972, na sequência do sequestro do Setembro Negro nos Jogos Olímpicos de Munique, a Mossad vingara-se colocando explosivos na base do telefone fixo de Mahmoud Hamshari, representante da Organição pela Libertação da Palestina, em Paris. E em 1996, Israel sabotou o telemóvel de um dos líderes do Hamas, Yahya Ayyash, fazendo-o explodir e matando o palestiniano. Mas a ideia de usar equipamento técnico para atacar o Hezbollah a partir de dentro só surgiu na década de 2010, quando o grupo começou a recorrer a outros meios que não telemóveis para comunicar.

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, começou desde muito cedo a temer que os telemóveis pudessem ser escutados pelas autoridades israelitas e deu instruções diretas aos membros do grupo para que os evitassem: "Perguntam-me onde está o agente", disse o clérigo numa mensagem emitida na televisão. "Está nesse telefone que está nas vossas mãos, nas mãos da vossa mulher, nas mãos dos vossos filhos." De seguida, ordenou: "Desliguem-nos, ponham-nos num cofre de ferro e tranquem-nos."

O Hezbollah substituiu então a comunicação por telemóveis com walkie-talkies. Em 2014, a empresa japonesa iCOM deixou de produzir os seus populares walkie-talkies, o que levou o Hezbollah a tentar procurar alternativas. E a Mossad entrou em ação, começando a produzir réplicas dos aparelhos que incluíam explosivos dentro das baterias. De acordo com o New York Times, Telavive conseguiu que mais de 15 mil destes aparelhos fossem comprados pelo grupo xiita. Como os walkie talkies são sobretudo usados na frente de guerra, a partir de certa altura a Mossad passou também a vender pagers.

Mas como foi possível convencer o Hezbollah a comprar material a Israel? Para começar, é óbvio que o grupo não fazia ideia da proveniência do equipamento. Como um dos membros da operação revelou à CBS, o truque era criar empresas de fachada estrangeiras, que não pudessem ser associadas a Israel. "Criamos um mundo a fingir. Somos uma empresa de produção global. Fazemos o guião e somos os realizadores, os produtores e os atores principais. O mundo é o nosso palco."

Uma vendedora de Taiwan — ligada, naturalmente, à Mossad — criou uma empresa e obteve a licença para vender pagers da marca Apollo, uma das fabricantes de fachada criadas por Israel. Em 2023, a mulher fez um acordo com o Hezbollah para lhes vender uma série de pagers do modelo AR924. "Era ela quem estava em contacto com o Hezbollah e explicou-lhes que este pager maior, com uma bateria maior, era melhor do que o modelo original", contou ao Washington Post um responsável israelita.

A bateria do AR924 tinha uma vida de meses, sem ser preciso recarregá-la durante esse período, e era à prova de água. Os pagers, que pesavam menos de 100 gramas, tinham o explosivo tão bem escondido dentro deles que nem desmontando o equipamento era possível encontrá-lo. E, à distância, a Mossad tinha acesso à sua localização — e capacidade para o detonar quando assim o entendesse.

A decisão foi tomada a 16 de setembro de 2024, numa reunião entre o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e membros da Mossad. No dia seguinte, os pagers explodiram.

Uma operação que cumpre as leis da guerra ou uma forma de terrorismo?

A espetacularidade da Operação Beeper Anjo da Morte impressionou o mundo: "É uma das movimentações mais originais, surpreendentes e dolorosas desta guerra na sombra", afirmou o jornalista especialista na Mossad Ronen Bergman. "Este é o tipo de operação a que se recorre apenas em casos de emergência."

A posição de Avner Avraham é de defesa total da operação. "É inteligente, criativa e mudou toda a situação", diz ao Observador. "Os pagers eram usados por comandantes, não pelas pessoas que cozinham ou limpam carros. E incluiu o embaixador iraniano, se bem se lembra", acrescenta, referindo-se a Mojtaba Amani, que perdeu um olho com a explosão do seu equipamento.

A divisão de opiniões é gritante. Enquanto um responsável de segurança ocidental comentou que se sentia "invejoso" desta "operação muito bonita", o antigo líder da CIA Leon Panetta descreveu-a como "uma forma de terrorismo". "Gosto de audácia, mas, colocando na balança, não aprovaria a operação, por não se focar bem nos alvos. Havia a hipótese de um dos pagers matar uma criança que estava por acaso com ele na mão", notou um responsável da Defesa de um país ocidental ao Financial Times.

O "mal necessário" dos assassinatos seletivos

O jornalista Ronen Bergman não tem dúvidas: "Desde a II Guerra Mundial, Israel assassinou mais pessoas do que qualquer outro país do mundo ocidental", escreve no seu livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates). "Em muitos casos, os líderes de Israel determinaram que, para matar o alvo designado, é moral e legal pôr em risco as vidas de civis inocentes que possam estar na linha de fogo. Magoar essas pessoas, acreditam, é um mal necessário." Segundo as estimativas de Bergman, a Mossad terá matado cerca de três mil pessoas em todas as suas operações. Até ao 11 de Setembro e à mudança de política na CIA, Israel era a única democracia que recorria a assassinatos seletivos para terroristas.

Espiões da agência como Shabtai Shavit consideram essa ação legítima e classificam as críticas de outros países como hipócritas. "Nem a 'iluminada' Europa (que ainda não chegou a uma definição consensual de terrorismo), nem os nossos exigentes irmãos que cacarejam e que deliberadamente evitam o termo 'assassinato seletivo' e preferem, na sua ousadia, usar o termo 'homicídio', vão dar-nos lições", escreveu numa carta enviada ao jornal Haaretz em 2019.

Quando anunciou publicamente a Operação Beeper Anjo da Morte, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reconheceu que houve "oposição de responsáveis séniores no establishment da Defesa e nos altos escalões políticos" ao ataque. O diretor da Mossad, David Barnea, não era um deles: "Foi um dia em que o engano na guerra mostrou ser mais poderoso do que a força bruta", decretou sobre a operação.

A mãe de todas as operações

Faltam poucos meses para a Revolução Islâmica, liderada pelo aiatola Khomeini, rebentar no Irão. Yossi Alpher é um analista da Mossad em Teerão e trabalha na unidade do Instituto naquele país. Naquela tarde, é chamado ao gabinete do seu chefe, que usa o nome de código Geisi.

Geisi conta-lhe que recebeu um pedido invulgar. O atual primeiro-ministro do Irão, leal ao Xá, ligou-lhe e disse: "Tenho um pedido para fazer a Israel. Matem Khomeini". Shapour Bakhtiar já tentara a CIA e o MI6 primeiro, mas recebeu uma série de negas. Espera agora que os israelitas façam o que os outros não quiseram.

O superior de Alpher pergunta-lhe o que acha. "Tenho de dizer que sou contra assassinatos políticos, mas, tendo em conta as circunstâncias, temos de considerar isto", afirma Geisi. Yossi Alpher tem de pensar rápido, porque o chefe não está para perder tempo. Analisa na sua cabeça os cenários, o contexto, as consequências. "Não sabemos o suficiente sobre Khomeini para lhe poder dar uma resposta", diz, finalmente. O chefe responde: "Muito obrigado. Vamos dizer que não."

Sem saber que tinha escapado por pouco, Ruhollah Khomeini regressou do exílio em Neauphle-le-Château, em França, e liderou a Revolução que instituiria um regime teocrático xiita. 48 anos depois, Yossi e o resto dos israelitas vivem com os efeitos do confronto prolongado entre Israel, o "pequeno Satã" para os líderes islâmicos de Teerão, e o Irão.

Da "Aliança da Periferia" ao Irão-Contras

Quando Yossi Alpher era um agente da Mossad dentro do Irão, na década de 70, as relações Irão-Israel estavam longe da beligerância de hoje. Durante o regime do Xá, a agência movimentava-se com liberdade dentro de território iraniano e valia-se de uma extensa rede de contactos na comunidade judaica do Irão, à altura ainda numerosa. A Mossad treinava responsáveis do regime, incluindo membros da polícia política, a SAVAK.

A Mossad foi das primeiras a apanhar-lhe o rasto: "Temo que este nosso amigo [o Irão] se torne em breve num inimigo", comentou Reuven Merhav, um dos diretores do Instituto em Teerão, com o seu sucessor no cargo. "Estou a dar-te o Irão como uma bomba que vai rebentar."

A agência estava a par das centenas de milhares de cassetes com sermões de Khomeini que circulavam no Irão. A estimativa da Mossad, de acordo com o jornalista Ronen Bergman no seu livro The Secret War with Iran (sem edição em português), era de que pelo menos seis milhões de iranianos já tinham entrado em contacto com os sermões. E o embaixador israelita informava Telavive, depois de uma audiência com o Xá, de que este estava "desligado da realidade, a viver num mundo só seu, quase delirante": "Está rodeado de bajuladores que não lhe dizem a verdade."

Foi durante este período que a Mossad recebeu o pedido do primeiro-ministro para matar Khomeini. Mas Yossi Alpher não tem dúvidas de que, apesar de todas as capacidades da agência, não se sabia o suficiente sobre o aiatola: "Era ainda um mistério. Não só as suas intenções políticas, ideológicas e religiosas, mas também a sua capacidade para a brutalidade. Este tipo era como Lenine, era um revolucionário, pronto para fazer qualquer coisa pela causa. Khomeini era assim, mas não sabíamos."

A 1 de fevereiro de 1979, Khomeini fez o seu regresso triunfal a Teerão e deu início à Revolução Islâmica. A Mossad e outros representantes israelitas no país fugiram dez dias depois.

O que Israel não sabia é que parte do armamento que estava a vender ao Irão estava a ser transferido para o Hezbollah, no Líbano, e usado contra território israelita. "O Irão não queria uma aproximação a Israel. Era impossível", resumiu ao The Guardian o académico iraniano-israelita Meir Javedanfar. Como notou o analista Shmuel Bar, "na visão do Irão, pode-se fazer negócios com o próprio Diabo, mas Satã continua a ser Satã".

A operação à "Ocean's Eleven" e a arma que dispara sozinha

Naquela noite de janeiro de 2018, um grande contingente da Mossad está reunido numa sala em Telavive. Estão ali para acompanhar em direto uma mega operação em território iraniano, ambiciosa e potencialmente perigosa. Às 22h31, o diretor do Instituto dá a ordem: "Executem." A segunda ordem é mais concreta: "Arranjem-me o arquivo nuclear. Tragam-no para casa."

Os agentes entram então num armazém nos arredores de Teerão, em Shorabad. O Die Welt conta como puseram a operação em prática: "Usando equipamento de soldar que atinge os 3.600 graus Celsius, abrem os cofres e examinam o seu conteúdo. Seis horas e 29 minutos depois, carregam os ficheiros e CDs em carrinhas que vão transportar o material e atravessar a fronteira. Meia tonelada de conhecimento, roubado do coração do arqui-inimigo. Se os combatentes fossem apanhados, seriam torturados e enforcados numa grua no centro de Teerão. Mas a 'missão impossível' foi bem sucedida."

O diretor Yossi Cohen transmitiu a informação ao chefe do Governo. "Finalmente, às 3h29 — hora de Telavive, 4h59 no Irão —, pude briefar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de que tínhamos roubado o que ele queria", recordaria Cohen no seu livro de memórias The Sword of Freedom (sem edição em português). "55 mil páginas de documentação e 183 CDs onde estavam outros 55 mil ficheiros, incluindo memorandos, vídeos, plantas e planos estratégicos."

A 27 de novembro de 2020, a Mossad mata Mohsen Fakhrizadeh, considerado o cientista mais importante do programa nuclear iraniano. A arma utilizada tinha capacidade de disparar com controlo remoto. As peças que a compunham foram contrabandeadas pela Mossad para dentro do Irão.

Dois anos depois, o coronel Sayad Khodayee, da Guarda Revolucionária, é atingido a tiro por dois agentes que seguiam de mota. Em 2024, a Mossad mata o líder político do Hamas, Ismail Haniey, colocando um explosivo na hospedaria em Teerão onde estava.

Um Irão que explode a partir de dentro graças à Mossad

A operação mais espetacular de Israel dentro do Irão surgiria em 2025. O mundo fica boquiaberto quando se ouvem múltiplas explosões, incluindo nas centrais nucleares de Natanz, Isfahan e Fordo, vindas a partir de dentro. Ao mesmo tempo, nove explosões em casas matam nove cientistas nucleares. A operação "Com a Força de um Leão" duraria apenas quatro horas. Mas levaria à Guerra dos 12 Dias, depois da retaliação do Irão.

Mais uma vez, nada disto teria sido possível sem a rede da Mossad — e a colaboração de espiões iranianos. Durante meses, a agência contrabandeou para dentro do país centenas de drones com explosivos acoplados em malas, carrinhas e contentores, segundo o Wall Street Journal. Todos podiam ser detonados à distância.

Yossi Alpher, que falou com o Observador ainda durante a Guerra dos 12 Dias, antecipava, porém, que as mortes de vários comandantes da Guarda Revolucionária seriam inúteis. "Querem livrar-se do comando de topo? Tudo bem, mas não aproveitem isso como uma grande vitória estratégica", avisou. "Mata-se um, outro é nomeado. É como o Estado-Maior das nossas IDF. Imaginemos que uma bomba mata os 20 generais amanhã. Quanto tempo demoraríamos a ter um novo Estado-Maior? Meio dia? Um dia? Não mais do que isso."

O investigador Ahron Bregman já tinha dito o mesmo ao Observador um ano antes. "Os israelitas não admitem isto, mas há aqui um elemento de vingança", disse. "Foi assim com Munique e com o 7 de Outubro. Mas, a longo prazo, isto não muda o rumo das coisas. Há sempre um sucessor — e às vezes melhor do que aquele que foi assassinado", frisou, dando o exemplo de Abbas al-Musawi, líder do Hezbollah morto por Israel em 1992, que foi substituído por um líder "muito melhor", Hassan Nasrallah.

De qualquer forma, o sucesso operacional das operações da Mossad dentro de território iraniano são inegáveis. "É um enorme feito dos serviços de informação. Enorme. Vai ser ensinado nas escolas. Se esperarmos 20, 30 anos, os veteranos vão contar como o fizeram. Estão mortinhos para contar, mas agora não podem."

É que a Mossad, ao contrário de outros serviços secretos como a CIA, sempre teve como característica revelar anos depois pormenores das suas operações bem sucedidas — uma escolha que tem efeitos de propaganda muito benéficos para a agência. Por todo o mundo, o Instituto é visto como um dos mais eficazes: a sensação é de que ninguém lhe escapa. As execuções extra-judiciais, que violam o Direito Internacional e que alguns veem como uma mancha, são motivo de vaidade para a Mossad.

Mas isso acarreta as suas próprias contradições, como refletiu Ronen Bergman no livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates): "Por um lado, quase tudo relacionado com os serviços de informações e de segurança nacional é classificado como top secret. Por outro, toda a gente quer falar sobre o que fez. Atos que pessoas noutros países teriam vergonha de admitir são uma fonte de orgulho para os israelitas, porque são vistos coletivamente como imperativos da segurança nacional, necessários para proteger vidas de israelitas ameaçadas, senão mesmo como necessários para proteger a existência de um Estado preparado para o combate."

Yossi Alpher, que em tempos trabalhou de forma clandestina dentro do Irão, também vive com as suas próprias contradições. Apesar de considerar que matar líderes não é uma estratégia bem sucedida, não consegue deixar de se interrogar sobre o que poderia ter acontecido se, naquela tarde de 1978, tivesse dito ao seu chefe que a Mossad deveria mesmo assassinar Ruhollah Khomeini.

"Será que isto podia ter sido travado? O Médio Oriente podia ter sido poupado a tudo isto?", interroga-se. "Talvez." Mas, apesar disso, voltaria a fazer o mesmo: "É preciso dizer a verdade ao poder. Não me arrependo, porque era a única resposta que podia ter dado na altura", assume. Para, logo de seguida, acrescentar um desabafo: "Só me arrependo de não ter sabido mais. Arrependo-me de não saber mais…"

Nota: Este texto foi obtido, traduzido e formatado de forma automática pelo agente de IA Mimo Code com o modelo Mimo 2.5-Pro- Ultraspeed.

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