O despertar dos erobots

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Pedro Moro, 9 de Julho de 2026
Link para o Artigo original: [revista piauí]
9 minutos


Luzes roxas, azuis e brancas piscavam freneticamente na Illuzion Phuket, uma das discotecas mais caras da Tailândia. Pessoas conversavam e dançavam ao som de remixes de clássicos como We will rock you, dos Queen. No meio delas, Guilherme Kupke, um gaúcho de vinte e poucos anos, ocupava-se de outra coisa. A filmar o próprio telemóvel, preparava um vídeo que publicaria mais tarde no seu Instagram. Era um tutorial de como usar plataformas de IA para criar uma atriz pornográfica virtual — ou, como ele diz, uma "modelo do job". Tudo muito fácil, prometeu o rapaz. Tão fácil que dava para fazer no meio da discoteca.

Primeiro, Kupke entrou no ChatGPT e digitou o seguinte comando: "Dê-me um prompt em inglês de uma modelo russa de rosto." Depois copiou a resposta gerada pela inteligência artificial e colou-a na aplicação Leonardo.ai, uma plataforma de IA generativa de vídeos e fotografias, que rapidamente produziu quatro retratos de uma mulher branca, loira e de olhos verdes. Eram imagens realistas, que pareciam feitas num estúdio profissional. "Simplesmente impossível dizer que isto é inteligência artificial", gabou-se Kupke.

Para finalizar, o jovem gaúcho exportou a imagem para uma "aplicação secreta", que transforma imagens em vídeos. Nesse momento, revelou que o tutorial era apenas parcial: quem quisesse o nome da plataforma deveria inscrever-se no seu curso, que tem o nome nada discreto de "Cafetão Digital: do zero ao avançado". Ele promete que, nas aulas, pode ensinar qualquer um a ganhar dinheiro a criar mulheres e a produzir vídeos eróticos com elas.

Não é difícil descobrir, por outros caminhos, que a tal aplicação secreta é o SeaArt.AI. Mas Kupke parece apostar que muitos dos seus seguidores não saberão disso, e que, mesmo que saibam, terão interesse em aprender as minúcias do processo. A inscrição no curso custa 67,90 reais. No final do vídeo que gravou na Tailândia, o autointitulado cafetão digital mostrou dezenas de notificações que surgiram no telemóvel. Segundo ele, eram transferências Pix que havia recebido apenas naquele dia a vender vídeos sensuais.

Kupke tem vários perfis em seu próprio nome no Instagram e no TikTok. Diz ter dado aulas a mais de mil pessoas que, hoje, segundo ele, facturam entre 100 e 500 reais por dia com a pornografia digital. É impossível confirmar esse número. Contactado pela piauí, Kupke não quis dar entrevista.

Há dezanove queixas registadas contra o serviço no site ReclameAqui. "Comprei o método Gui do Hot e quando fui ver não tinha nada do que ele disse, apenas quatro vídeos a falar de motivação", queixou-se um utilizador de Limeira (SP). "Senti-me enganado", escreveu outro, de Passo Fundo (RS), a reclamar dos "vídeos genéricos".

Mas é razoável supor que haja mesmo muitos interessados em cursos como o "Cafetão Digital". A internet vive hoje uma profusão de vídeos eróticos — alguns explicitamente pornográficos, outros não — estrelados por personagens criados por inteligência artificial. Alguns deles tornaram-se celebridades. Emily Pellegrini, por exemplo, é uma modelo fictícia de 23 anos que chegou a ter meio milhão de seguidores no Instagram. Tornou-se um case noticiado internacionalmente, embora o seu perfil, depois de alguns meses, tenha sido desativado. Por trás dela está uma pessoa real que se apresenta pelo pseudónimo de Professor EP e administrava outros perfis que, somados, tinham mais de 300 mil seguidores no Instagram. Como Kupke, vendia cursos a prometer ensinar outras pessoas a faturar com este mercado.

O que está em curso é uma mudança relevante para a indústria pornográfica. Para os criadores de conteúdo, as vantagens de trabalhar com modelos fictícios são muitas. Eles não folgam, não viajam, não envelhecem, não recebem salário e podem ser adaptados ao gosto do cliente. Os vídeos, que na indústria tradicional demandam dias de trabalho de vários funcionários, podem ficar prontos em poucos minutos.

Um relatório publicado em setembro de 2024 pela consultoria SWR Data, que analisa tendências da internet, concluiu que quase dois terços dos criadores de conteúdo adulto em todo o mundo já utilizam IA, seja para gerar imagens ou para automatizar as interações com o público. Não há dados públicos sobre este fenómeno no Brasil, mas uma rápida busca revela muitos perfis como os de Kupke. O canal do YouTube Nível Alfa, por exemplo, ensina a produzir conteúdo erótico com IA e conta com mais de 20 mil inscritos. No TikTok, o perfil @faeldohot diz ter a fórmula para "transformar o telemóvel numa máquina de vendas". O dono da conta, cuja identidade é desconhecida, diz ter faturado 10 mil reais com o que chama de "o nicho mais fácil de lucrar no mundo".

Entre académicos, personagens como Emily Pellegrini ganharam a alcunha de erobots — isto é, robôs eróticos. Tornaram-se objeto de pesquisa, e alguns estudiosos veem vantagens na novidade. Eles apontam que estes personagens virtuais podem ser úteis para conduzir estudos sobre o desejo sexual humano, para tratar pacientes com traumas e para educar sexualmente os jovens.

Embora estes benefícios possam ser reais, hoje os "modelos do job" suscitam também uma série de preocupações éticas. A começar pela misoginia, que, se não é novidade alguma na pornografia, ganha contornos mais explícitos na sua versão artificial. Guilherme Kupke, nos comandos que dá às ferramentas de IA, frequentemente define mulheres em termos como "bem loirinha", "japinha", "albina negra", "safada" ou "muito negra". A facilidade para produzir este tipo de conteúdo tem feito com que algumas redes sociais — sobretudo as menos moderadas, como o X — sejam inundadas por imagens sexualizadas, quase sempre de mulheres, quase sempre com padrões de beleza irreais.

Mas não é só isso. Uma reportagem da Wired, publicada em dezembro do ano passado, mostrou que utilizadores vinham a burlar os filtros de segurança do ChatGPT e do Gemini para manipular fotografias, "tirando" a roupa a mulheres reais. São casos que se encaixam no conceito de deepfake. No X, de Elon Musk, sequer era necessário burlar regras. No final de 2025, a rede social lançou o Grok, um chatbot extremamente permissivo com pornografia e conteúdos ofensivos. Apenas nos primeiros nove dias de funcionamento, a ferramenta foi usada para produzir 1,8 milhões de fotografias sexualizadas, segundo o New York Times. No meio do tsunami, havia imagens de menores de idade.

Os comentários em publicações feitas por Kupke mostram que o risco é generalizado. Num dos seus tutoriais sobre como criar mulheres, um utilizador escreveu: "Vou usar na foto da menina de quem eu gosto." Deu a entender, com isso, que criaria fotografias — e talvez vídeos — sexualizados de uma pessoa real.

Na prática, nada o impede. O código penal brasileiro considera crime disseminar e armazenar imagens de nudez sem consentimento das pessoas retratadas, mas não há regras específicas para deepfakes — e, até agora, não há leis que proíbam as big techs de veicular conteúdos deste tipo. O Brasil, como outros países, corre atrás do prejuízo no que diz respeito à regulação das IAs. Na Europa, os primeiros passos estão a ser dados. No mês passado, o Parlamento Europeu aprimorou a sua legislação de modo a incluir no texto, expressamente, a proibição de ferramentas que criam deepfakes sexuais.

Patrícia Peck, advogada especialista em direito digital e integrante do Comité Nacional de Cibersegurança (CNCiber), reconhece que a regulação da inteligência artificial no Brasil "ainda é incipiente". O risco, diz ela, não está apenas nos deepfakes intencionais. Como os agentes de IA são alimentados com bases de dados reais, é possível que, ao receber a ordem de criar uma pessoa fictícia, acabem por gerar uma imagem muito próxima da de alguém que existe. Sobretudo em contextos sexuais, essas semelhanças podem eventualmente causar constrangimentos e danos à reputação de alguém.

Peck reconhece que o combate aos deepfakes está longe de ser algo fácil. Estes conteúdos costumam ser feitos por contas anónimas, em plataformas estrangeiras que muitas vezes sequer têm representantes no Brasil. O rastreamento desses utilizadores, além disso, é dificultado pelo uso de VPNs — serviços de segurança digital que permitem disfarçar a localização virtual de uma pessoa, simulando que ela, por exemplo, está noutro país.

Como é quase impossível impedir a criação dos deepfakes, diz Peck, a tarefa do poder público é tentar ao menos dificultar que eles circulem. Um caminho para isso é determinar, por lei, que todo o conteúdo gerado por inteligência artificial seja sinalizado como tal. Não é uma solução mágica — afinal, hoje já existem ferramentas capazes de remover marcas de água de fotografias e vídeos —, mas é um obstáculo que pode ao menos atrapalhar quem cria este tipo de conteúdo.

Um outro caminho, mais eficaz, é responsabilizar as plataformas que veiculam os deepfakes, forçando-as a adotar políticas de moderação mais rigorosas. Foi o que fez o governo federal no final de maio, com a publicação do decreto nº 12.976/2026, que estabelece mecanismos de enfrentamento da violência contra as mulheres no ambiente digital. O texto veda "a geração e a modificação de conteúdo íntimo de terceiro mediante uso de inteligência artificial" e determina que as plataformas deverão "identificar e bloquear solicitações" deste tipo. É um passo adiante na regulação da IA no Brasil, e os seus efeitos ainda estão por ser medidos. O decreto só entra em vigor no final de julho.

Em paralelo, o Senado aprovou na terça-feira (7) um projeto que endurece as penas de quem pratica violência sexual digital contra crianças e adolescentes, o que inclui a produção e partilha de deepfakes. A nova lei, que já havia sido aprovada pela Câmara, segue agora para sanção de Lula.

A piauí indagou à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que medidas estão a ser tomadas para coibir os deepfakes e impedir que os dados de utilizadores sejam usados na criação de personagens eróticas. Por meio de nota, a agência respondeu que está a adaptar-se ao novo decreto e que recentemente abriu um processo de fiscalização contra o X, "após a enxurrada de denúncias de produção de conteúdo sexual sintético com dados pessoais". Casos de violação de privacidade, disse a ANPD, devem ser analisados um a um, "a partir de situações concretas". A agência disse, por fim, estar a preparar a agenda regulatória do próximo biénio, em que serão atualizadas as regras sobre o uso de dados pessoais por sistemas de inteligência artificial.

Guilherme Kupke não ensina apenas a criar mulheres artificiais. Ensina também a interpretá-las em conversas com potenciais clientes. Num dos seus perfis de "modelos do job", publicou a seguinte chamada: "Eu tenho a florzinha bem rosinha, acreditas? Se não acreditares, assina o meu privadinho por R$ 29,90." O jovem gaúcho diz que frases como esta são tiro e queda. Em questão de minutos, depois de a publicar, o perfil é inundado por mensagens de homens excitados — "o gado", como ele próprio se refere aos seus clientes.

O seu curso é alardead também num site próprio. Quando a piauí entrou em contacto, em março passado, Kupke disse não ter "interesse em entrevistas ou matérias do tipo". Depois, não respondeu a novas mensagens. Recentemente, adicionou um adendo no seu site, em que diz: "Não garantimos resultados financeiros ou de qualquer natureza, pois estes dependem de diversos fatores individuais como aplicação, experiência e contexto de cada utilizador."

Na sua política de conteúdo, tanto o Instagram como o TikTok proíbem publicações com teor sexual. Questionada sobre o tipo de conteúdo produzido por Kupke, a Meta, dona do Instagram, preferiu não comentar. Pouco tempo depois, porém, os perfis do jovem gaúcho foram retirados do ar (manteve apenas um perfil pessoal, com 130 mil seguidores). A piauí também contactou o TikTok, rede em que Kupke tinha um envolvimento ainda maior. A plataforma disse, em nota, que não permite comercializar, fazer marketing ou fornecer acesso a serviços sexuais de qualquer origem. Os perfis foram excluídos.

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