O Demónio da Porta ao Lado
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Stephanie McCrummen, 7 de julho de 2026
Link para o artigo original: The Atlantic
30 minutos
Visto do exterior, o templo parecia uma simples loja de tijolo à vista, com janelas espelhadas a descascar e um letreiro pintado de branco com letras azuis. THE WELL, lia-se, e por baixo, REVIVAL HUB.
Havia igrejas mais antigas e imponentes em Maryville, uma cidade universitária no leste do Tennessee onde era difícil conduzir um minuto sem passar por uma cruz ou um cartaz sobre Jesus. Mas quando Mike e Andrea Brewer fundaram o The Well, em 2016, compreendiam-se como parte de algo mais místico e revolucionário do que qualquer denominação existente — um movimento cristão carismático que tem atraído milhões de norte-americanos com a promessa de encontros sobrenaturais com Deus e visões de uma batalha cósmica.
Pelos seus próprios relatos, Mike fora um operário fabril exausto e um pentecostal descrente, viciado em pornografia, quando, uma noite, em casa a rezar por uma vida melhor, ouviu uma voz desconhecida a chamar por ele e acreditou que era Deus. Na igreja, dias mais tarde, escreveria ele, sentiu uma "explosão tangível" no peito, seguida de "a pureza e a retidão de Deus a moverem-se através de mim em ondas". Passou a acreditar que um demónio saíra do seu corpo e que o Espírito Santo ocupara o seu lugar. Decidiu que Deus o escolhera para uma missão divina.
Os Brewer começaram a frequentar conferências com nomes como "Voz dos Profetas" e "Voz dos Apóstolos" em lugares como Lancaster, Pensilvânia, e Springfield, Missouri. Num encontro, Mike afirmou ter visto um anjo de verdade; noutro, uma manifestação do Espírito Santo que descreveu como "como cinco máquinas de nevoeiro, como uma nuvem a entrar na sala". Ele e Andrea vieram a acreditar que Deus estava a desencadear novos sinais e maravilhas e a suscitar apóstolos e profetas dos tempos modernos — incluindo, ao que parece, eles próprios.
Foram como missionários para a Índia e o Haiti, o que apenas confirmou a sua compreensão emergente de um universo com três reinos distintos — o celestial, o terreno e o submundo, sendo a Terra o reino da guerra espiritual. De um lado, o Espírito Santo, os anjos e os crentes formavam o exército de Deus. Do outro, as forças de Satanás — legiões de demónios com nomes, patentes e personalidades que podiam habitar pessoas, regiões geográficas e nações inteiras. Na Índia, os Brewer afirmaram ter combatido Shiva, Brahma e Kali. No Haiti, Python e Mami Wata. Havia Marduk, Osíris, Rá, Hórus, Diana, Ártemis, Shesha Naga, e por diante — todo um panteão de demónios que representava religiões e civilizações antigas, e cujas expressões terrenas seriam essenciais para compreender a atualidade.
Quando os Brewer regressaram a Maryville, viam-se como guerreiros espirituais endurecidos. Fundaram o The Well para continuar a batalha, juntando-se a uma rede internacional de igrejas e ministérios chamada Global Awakening, que também tinha um seminário, onde Andrea começou a estudar a história e as hierarquias dos demónios. Quando Mike perguntou a Deus qual era exatamente a sua missão, disse-me durante a minha visita em março: "o Senhor falou de forma muito clara. Disse: 'Estou a dar a ti e ao The Well um mandato para a erradicação total da feitiçaria e da atividade demoníaca na região.'"
E foi isso que levou os Brewer, um dia, alguns anos mais tarde, a olhar para o outro lado da rua e a determinar que o centro nevrálgico da atividade demoníaca na região ficava a cerca de 90 metros dali. Era uma livraria chamada Southland.
A proprietária era Lisa Misosky, e estava a conversar com clientes numa tarde quando descobriu que andavam na cidade a acusá-la de atividade demoníaca — e não num sentido metafórico.
Ao longo de três décadas em Maryville, Misosky transformara a Southland Books and Cafe numa instituição local, um labirinto de estantes antigas onde as pessoas podiam encontrar um Mark Twain em couro, um Charles Bukowski em brochura, prateleiras de história militar e panfletos para um grupo local de mah-jongg. Misosky tinha um bar no piso inferior onde organizava noites de trivia, leituras, concertos punk para todas as idades e eventos de angariação de fundos que por vezes incluíam espetáculos de drag. Ocasionalmente, cedia espaço ao Partido Democrata local. Mas nada disso atraíra protestos públicos até uma nova igreja se mudar para o outro lado da rua.
"Não vais acreditar nisto", escreveu-lhe um amigo, enviando depois o primeiro de vários vídeos publicados por um homem que se apresentou como Mike Brewer, líder de um "centro apostólico" chamado The Well. Sentado a uma secretária, explicou de forma calma e metódica que a livraria fora identificada como um "reduto demoníaco regional". Um demónio de alta patente chamado Lilith estava envolvido, viria Misosky a saber, e a livraria era alvo daquilo a que chamavam "guerra espiritual de nível estratégico", cujo objetivo era "remover o inimigo".
Misosky nascera e crescera em Maryville. Tinha 58 anos, era católica e homossexual, e disse-me que estava habituada a viver entre cristãos conservadores. Ainda assim, demoníaco foi uma surpresa. "Isto é provavelmente a coisa mais estúpida que já ouvi", lembrou-se de pensar depois de ver o primeiro vídeo, sem ainda perceber que a igreja fazia parte do segmento do cristianismo que mais cresce no país, ou que a linguagem que ouvia no outono de 2022 se estava a espalhar pela direita cristã e por todo o panorama político.
Nos anos seguintes, Donald Trump acusaria todo o Partido Democrata de ser demoníaco. Tucker Carlson afirmaria ter sido agredido por um demónio enquanto dormia. Steve Bannon chamaria demoníacos aos ativistas luteranos e católicos que ajudam imigrantes. Um responsável federal pela gestão de emergências falaria de ter sido teletransportado para um Waffle House a 80 quilómetros de distância, elaborando que não tinha a certeza se as forças transportadoras eram "boas" ou "más". J. D. Vance diria dos OVNIs: "Não creio que sejam extraterrestres. Acho que são demónios." E os mesmos apóstolos e profetas que afirmavam que Deus ungira Trump para presidente encorajá-lo-iam a ver a sua guerra contra o Irão como um confronto cósmico com uma entidade demoníaca conhecida como o Príncipe da Pérsia.
Naquele momento inicial, porém, Misossky perguntava-se simplesmente o que significariam as acusações para a sua livraria e para as pessoas que lá iam. Porque estaria a ser visada? O que seria, exatamente, demoníaco na Southland? O mah-jongg? A secção de romantasia? Uma artista drag chamada Icky Stardust? Ela própria? Perguntou-se se precisaria de se preocupar com a segurança.
Começou a pesquisar livros sobre o assunto, descobrindo toda uma especialidade chamada demonologia. Encontrou um manual escrito por um casal do leste do Texas intitulado Pigs in the Parlor: A Practical Guide to Deliverance, que tinha um capítulo a descrever 53 agrupamentos demoníacos diferentes.
Da porta da frente, mantinha-se atenta ao que acontecia do outro lado da rua. Uma tabacaria obstruía a visão total da igreja, mas às quintas e domingos via carros e carrinhas a entrar no estacionamento irregular.
De certa forma, claro, nada disto era novo. A crença em forças satânicas faz parte do cristianismo desde o primeiro século. O que era relativamente novo era o movimento emergente que estava a potenciar estes conceitos, e que criara raízes nos círculos carismáticos durante os anos 1990. Os primeiros líderes chamaram às suas ideias a Nova Reforma Apostólica (NAR), afirmando que uma vaga de poder do Espírito Santo estava a surgir em todo o mundo, anunciando uma "nova era apostólica". Os líderes da NAR revisitaram a narrativa comum dos Fins dos Tempos de uma forma que se revelaria revolucionária: em vez de se retirarem do mundo e aguardarem o regresso de Jesus Cristo, acreditavam, os cristãos deviam estabelecer o Reino de Deus — agora mesmo, na Terra.
A sua versão do Reino encaixava perfeitamente nos objetivos políticos dos conservadores sociais, dos libertários e, mais recentemente, do movimento MAGA. O Reino teria um governo limitado, mercados livres, dois géneros, um tipo de casamento e um tipo de Deus. A parte do "agora mesmo", entretanto, oferecia um paradigma urgente para mobilizar os crentes de base, tirando-os da Igreja e levando-os para a política eleitoral, o governo, a educação e todos os outros domínios da vida onde deviam afirmar o domínio de Deus. Os novos apóstolos e profetas da NAR difundiam estas ideias através de redes descentralizadas de igrejas, ministérios internacionais de oração, escolas, reavivamentos e comícios de oração, atraindo seguidores que encontravam um sentido de poder e propósito na construção do Reino. Os líderes referiam-se aos crentes como "guerreiros", "exército de Deus" ou até "forças especiais", às igrejas como "bases militares" e a certos apóstolos como "generais". Acreditavam que ser cristão significava estar em estado permanente de guerra espiritual.
Na sua forma mais básica, isto significava simplesmente rezar para que Deus erradicasse o mal. Mas os líderes da NAR foram pioneiros numa versão mais radical a que chamaram "guerra espiritual estratégica", que implicava a ideia de que os demónios podiam dominar cidades e instituições, e que os cristãos podiam visá-los e dispersá-los através da sua presença física, oração intensiva, cânticos, marchas e outras estratégias.
Uma versão de como isto podia funcionar foi quando uma equipa de líderes da NAR, nos anos 90, escalou o Monte Evereste, onde passaram semanas a rezar a várias altitudes na tentativa de desalojar um demónio de alta patente chamado Rainha dos Céus, que acreditavam estar a suprimir a propagação do cristianismo no Médio Oriente e na Ásia. Outra versão foi a preparação da insurreição de 6 de janeiro de 2021, quando apóstolos e profetas proeminentes realizaram comícios de oração convocando "os minutemen do Reino" a erguerem-se contra forças demoníacas que acreditavam ter roubado as eleições de 2020, após o que muitos dos seus seguidores estiveram entre os que invadiram o Capitólio dos EUA. Outra versão foi o que aconteceu depois de os Brewer regressarem a Maryville.
As primeiras reuniões do The Well realizaram-se no escritório de um antigo stand de carros usados — apenas algumas famílias a rezar para que Deus revelasse o inimigo. À medida que mais pessoas se juntavam, o grupo mudou-se para um edifício de escritórios, onde, num domingo, Mike decidiu que era tempo de iniciar a primeira fase da guerra espiritual estratégica, visando aquilo que considerava serem demónios de nível básico. Convidou quem carregasse "dor emocional ou pensamentos atormentadores" a vir à frente da sala. Segundo ele e Andrea contam a história, um jovem recentemente saído da prisão avançou. Andrea colocou as mãos nos ombros dele e, enquanto Mike ordenava que quaisquer demónios se apresentassem, o jovem começou a tremer e a chorar, uma catarse que Mike declarou ser a vitória de Deus sobre um demónio que mais tarde identificaram como Odin, devido à participação do homem num gangue prisional de supremacia branca que adotava o deus nórdico. Depois disso, mais pessoas começaram a avançar, e foi durante este período que Mike recebeu o mandato para a erradicação total da feitiçaria e da atividade demoníaca na região.
Em 2021, a igreja mudou-se para o edifício de tijolo, um antigo supermercado ao longo de uma artéria principal da cidade, e reservou as noites de quinta-feira para libertar os habitantes de Maryville. O letreiro foi colocado. No santuário, colocaram-se cerca de 100 cadeiras dispostas em semicírculo à volta de uma bateria, guitarras e amplificadores. Numa parede, foi colocada um mapa da área sobreposto com o que parecia uma enorme teia de aranha que dividia a região em setores de oração. Onde normalmente estaria um púlpito ou uma cruz, havia um conjunto de holofotes âmbar e velas sem chama a brilhar. E quando as pessoas vinham, encontravam o género de cultos de forma livre comuns no movimento — pessoas a dançar com bandeiras de oração coloridas, a percorrer a sala ou prostradas no chão, a banda a tocar uma canção antémica atrás de outra.
Uma mulher chamada Sasha, que na altura trabalhava como motorista da Uber Eats, contou-me que, na sua primeira noite no The Well, "saiu-me este choro", que acreditava ser um demónio a deixar o seu corpo, libertando-a da dor emocional e física de uma histerectomia. Uma mulher de 62 anos chamada Pam disse-me que uma equipa de libertação conduziu uma "avaliação espiritual" para determinar como os demónios poderiam ter entrado no seu corpo, perguntando se tivera projeções astrais ou leituras de tarot, se praticara meditação ou ioga, ou se alguma vez se sentira invejosa, zangada, deprimida ou insegura. A equipa guiou-a depois num processo elaborado de renúncia a maldições e revogação de direitos demoníacos e, quando terminou, disse: "Acreditei realmente que era uma filha de Deus." Um jovem a sofrer de ansiedade severa e depressão contou-me que, após a sua purificação, sentiu "o maior amor que alguma vez senti." Uma mulher de meia-idade que lutara contra toxicodependência e vício em pornografia disse-me que, após várias sessões, se sentiu "eufórica — inteira, completa, una, fundida com a Trindade", e que seja o que for que Deus lhe peça, "farei, a todo o custo."
Chegavam pessoas do Alabama, Flórida, Michigan, Minnesota. Mike disse que um empresário abastado do Indiana voara para uma sessão privada. Líderes de libertação disseram-me que identificavam os demónios pelas formas como uma pessoa podia ser atormentada. Sentimentos de inutilidade era Belial. Confusão sexual podia ser Jezabel. A raiva podia ser Thor, que estava sob o comando de Odin. Os Brewer estimavam já ter libertado muitas centenas de pessoas, o suficiente para decidirem que estavam prontos para passar à fase seguinte da guerra espiritual. Isto implicava identificar demónios territoriais de patente superior, um processo que Andrea chamava de determinar a "narrativa do inferno" sobre a região.
Começou a reunir aquilo a que chamava "inteligência espiritual". Mantinha registo dos demónios identificados durante as libertações no The Well. Enquanto conduzia pela zona, disse-me, anotava lojas maçónicas, leitores de tarot e tudo o mais que a fizesse sentir desconfortável. Prestava atenção aos seus sonhos. Depois, chegou o dia em que Mike reparou num evento publicado no Facebook, uma angariação de fundos para crianças acolhidas que envolvia death metal e espetáculos de drag. A Murvul Punk Toy Drive ia realizar-se numa livraria mesmo do outro lado da rua.
Os Brewer não sabiam muito sobre a Southland, mas ao percorrer a página do Facebook da loja viram bandeiras arco-íris. Viram publicações sobre reuniões do Partido Democrata local e um círculo de tambores, juntamente com vídeos de espetáculos de drag passados, incluindo um em que Icky Stardust executava um número elaborado ao som de uma versão metal de "White Wedding" e derramava sangue falso sobre o vestido. Mike pensou ter visto um adolescente na plateia.
"Era óbvio", disse Andrea. O demónio de alta patente que influenciava a região era Lilith, uma deusa mesopotâmica do vento que governava o desejo sexual proibido, e a Southland era o reduto, que Mike definia como um lugar onde certos pensamentos, atitudes e comportamentos contrários a Deus prosperavam. Mike informou os anciãos da igreja. "Eu disse: 'Não podemos simplesmente ignorar isto'", contou-me. "Eu disse: 'Isto é mau.'"
Depois de ver o vídeo, Misosky começou a perguntar sobre os Brewer. Era um pouco mais velha que Mike, mas bastaram algumas chamadas para descobrir que ele era de uma cidade vizinha chamada Townsend, conhecida como porta de entrada turística para as Great Smoky Mountains. A irmã e uma amiga tinham trabalhado com os primos dele; outra amiga que trabalhara na Southland juntara-se ao The Well, e Misosky não a via desde então. Descobriu que Andrea trabalhara numa loja de ferragens local.
"Pregador de meia-tigela", murmurava Misosky quando o nome de Mike surgia.
Nunca quisera ser ativista política. Mas durante a era Trump, a Southland tornara-se um refúgio social do género que se encontra em muitas pequenas cidades do sul. O campus do Maryville College ficava na mesma rua, e estudantes e professores frequentavam o café. Um professor dava por vezes palestras sobre a Constituição. Casais homossexuais mais velhos encontravam-se para beber cerveja. Misosky decidiu organizar o primeiro evento Pride do condado em 2019, o mesmo ano em que o The Well recebera o mandato. Pensara que apareceria uma dúzia de pessoas, mas compareceram mais de 700, o que achou comovente, inesperadamente. Organizou mais eventos depois disso, incluindo angariações de fundos com espetáculos de drag; menores podiam assistir com um progenitor ou tutor, como era o caso da campanha de brinquedos punk que agora atraía a atenção do The Well.
Misosky folheou Pigs in the Parlor. "Este é o dia da batalha espiritual e da vitória espiritual", lia-se num capítulo intitulado "O Conflito Final". "A guerra está declarada!"
Foi online e procurou Lilith. "Semidemónio primordial", lia-se numa descrição. "Banida do Jardim do Éden por desobedecer a Adão", noutra.
"Toda a história precisa de um herói — um protagonista e um antagonista", lembrou-se de pensar. "Portanto, acho que sou a antagonista deles, em conluio com Lilith."
Quis ignorar tudo aquilo, mas não conseguiu. Achara que a conspiração QAnon era absurda, e ela levara um homem a conduzir até Washington, D.C., com uma AR-15 e a disparar dentro de uma pizzaria. Nancy Pelosi, enquanto presidente da Câmara dos Representantes, fora chamada demoníaca, e depois o seu marido fora agredido por um homem que falava de forças "más".
Do outro lado da rua, os Brewer transformaram uma sala de reuniões do The Well naquilo a que chamavam "sala de guerra". Colocaram mapas de todos os condados circundantes nas paredes, representando aquilo que consideravam o seu teatro de operações espiritual. Mike começou a publicar sobre a angariação de fundos para os seus milhares de seguidores nas redes sociais, dizendo que vinha "dos poços do inferno". A certa altura, disse, alguém aparentemente perturbado com isto enviou-lhe um envelope cheio de excrementos; outros enviaram cheques e instaram-no a continuar. Alguns congregantes começaram a fazer "orações ambulantes" perto da livraria, uma tática de guerra espiritual que fora usada nos dias e semanas anteriores à insurreição de 6 de janeiro, quando pessoas marcharam à volta do Supremo Tribunal dos EUA e de capitólios estaduais, convocando o Espírito Santo para a batalha.
Entretanto, Andrea começou a investigar as leis do Tennessee e encontrou um antigo estatuto que proibia espetáculos de cabaré a menos de 300 metros de uma igreja. Os Brewer enviaram a informação ao Ministério Público local, à polícia, ao xerife e aos comissários municipais e do condado. Em breve, um círculo mais alargado de ativistas e pastores se envolveu na causa, incluindo um que recentemente organizara uma queima de livros na cidade de Mt. Juliet, a cerca de três horas de distância — uma enorme fogueira que atraíra uma multidão de pessoas a aplaudir enquanto atiravam exemplares de Harry Potter e outros livros considerados demoníacos para as chamas.
No The Well, Mike mostrava imagens dos espetáculos de drag à sua congregação. Continuava a transmitir vídeos ao vivo a descrever o que se passava na Southland como "perverso". Depois, poucos dias antes da angariação de fundos, em novembro de 2022, Mike e Misosky falaram por telefone.
Segundo a versão dela, foi ela quem ligou a Mike, e ele falou sobre guerra espiritual contra chefes vodu no Haiti, ao que ela respondeu: "Que ótimo, Mike. Porque não toma um café comigo?"
Segundo a versão de Mike, foi ele quem ligou a Misosky. "Eu disse: 'Não estou a ligar para resolver diferenças. Não vamos fazer isso. Estou a ligar para pedir que os eventos sejam para maiores de 18 anos'", disse ele. "'Se estão a fazer marketing para crianças desta área, vamos fazer tudo dentro da lei e do espírito para vos parar. Nunca vos faremos mal fisicamente. Eu disse: 'Estou a ligar por respeito.'"
E foi a última vez que falaram.
Pouco depois, Misosky recebeu uma chamada da Liga Antidifamação. Havia conversa sobre um protesto na Southland em fóruns neonazis que o grupo monitorizava. Na altura, todo o tipo de eventos LGBTQ pelo país estava a ser alvo de grupos extremistas. Um atirador matara cinco pessoas e ferira dezanove numa discoteca LGBTQ no Colorado. Misosky ligou para a polícia. Ligou a alguns pastores locais que conhecia e pediu que aparecessem na angariação de fundos com as suas golas clericais. Publicou no Facebook que "fascistas do MAGA" estavam a ameaçar a campanha de brinquedos.
Na noite seguinte, ficou com dezenas de apoiantes em frente à livraria, a observar enquanto um grupo de nove homens, alguns com os rostos cobertos por lenços, marchava por uma rua lateral até ao passeio em frente à entrada, onde a polícia os impediu de avançar. Segundo a imprensa local, os homens seguravam cartazes que diziam GROOMERS SÃO PEDÓFILOS e É OK SER BRANCO. Pelo menos um deles parecia estar armado.
Os Brewer disseram que não faziam ideia de quem fossem os manifestantes e que estavam em casa na altura. No Facebook, Mike especulou que Misosky organizara uma operação de "bandeira falsa" para difamar cristãos. Mais tarde, a ADL e outro grupo de vigilância identificariam os homens como membros de um grupo neonazi chamado Tennessee Active Club, parte de uma rede de clubes semelhantes nos Estados Unidos. Membros do grupo apareceriam no ano seguinte na cidade de Franklin, a cerca de três horas e meia de Maryville, para fazer segurança para uma candidata à presidência da câmara chamada Gabrielle Hanson. Durante a sua campanha, Hanson falou de combater forças vagas que ameaçavam a nação e foi ungida para o cargo numa tenda de reavivamento cujos cartazes promocionais declaravam: ESTAMOS A RECUPERAR A TERRA DESLOCANDO FORÇAS DEMONÍACAS E ANUNCIANDO A SUA GLÓRIA. (Hanson disse mais tarde, em comunicado, que não contratara os homens que apareceram e negou qualquer filiação com "qualquer grupo de supremacia branca ou afiliado a nazis.")
Em frente à Southland, houve troca de gritos entre os manifestantes e os apoiantes de Misosky e, após algumas horas, os homens mascarados regressaram aos seus carros, estacionados a vários quarteirões; alguns deles reportaram à polícia que os pneus tinham sido cortados.
A angariação de fundos prosseguiu, mas Misosky manteve-se inquieta. Culpou o The Well por "colocar um alvo nas nossas costas" e fornecer "cobertura moral" para pessoas que pudessem querer justificar a violência. Passou a noite do protesto e várias noites depois acampada no chão da Southland com uma .38, uma 9 mm, uma caçadeira e um taco de basebol.
Mike disse-me que ele e Andrea se limitavam a trazer à luz a realidade das atividades demoníacas na Southland. "A verdade dói", disse. "Não vamos resolver as nossas diferenças, as nossas visões do mundo. Nunca faria mal fisicamente a ninguém, mas vou trazer consciencialização."
Quando contactei um dos manifestantes nomeados na imprensa local, disse-me que nunca ouvira falar do The Well, mas deixou clara a sua opinião sobre os espetáculos de drag. "Influenciar crianças para atividades sexuais não é demoníaco?", escreveu numa mensagem de texto.
Pouco depois da angariação de fundos, Misosky recebeu uma mensagem do xerife do condado, através de um intermediário, a perguntar se queria inscrever a sua equipa numa formação para atiradores ativos.
Andrea, entretanto, recebeu uma mensagem de Deus. Veio através de um dos seus mentores, um profeta no Colorado, que treinava pessoas em guerra espiritual e disse a Andrea que tivera uma profecia de que o The Well estava a entrar numa batalha final com Lilith, o que os Brewer entenderam menos como uma previsão e mais como uma instrução.
Até há pouco tempo, tudo isto poderia ter sido considerado um relato das franjas da religião americana, não fosse o facto de as ideias que se enraízam em Maryville estarem a tornar-se cada vez mais mainstream.
Enquanto os Batistas do Sul, os Metodistas Unidos e outras denominações continuam em declínio, milhões de norte-americanos encontram o seu caminho para igrejas não denominacionais com nomes como Oasis, Elevation e Harvest Rock, onde aprendem sobre os meandros dos demónios, da guerra espiritual e de outras ideias da NAR. Algumas das maiores megaigrejas do país, como El Rey Jesús na Flórida e Free Chapel na Geórgia, são lideradas por apóstolos e profetas do movimento. Uma dessas apóstolas, Paula White-Cain, é conselheira espiritual do presidente Trump.
Em 2024, cerca de 61% dos cristãos norte-americanos concordavam com a afirmação de que "existem apóstolos e profetas nos dias de hoje", e cerca de metade concordava que "existem 'principados' e 'potestades' demoníacos que controlam território físico", segundo um inquérito realizado por Paul Djupe, um cientista político da Denison University que está entre os poucos académicos a tentar acompanhar as formas como as ideias da NAR estão a transformar o cristianismo. Em dezembro de 2025, cerca de 59% dos cristãos evangélicos e 22% dos não evangélicos concordavam que "a igreja deve organizar campanhas de guerra espiritual e oração para desalojar demónios de alto nível", descobriu Djupe num inquérito de acompanhamento.
O mesmo inquérito indicou também que mais pessoas encontram estes conceitos nas redes sociais do que na igreja, o que revela como as pessoas seguem apóstolos e profetas através de ministérios online e redes de oração, e como os influenciadores da direita cristã em geral estão a aproveitar estas ideias para ganhar e possivelmente radicalizar seguidores.
Isto ficou evidente no memorial de Charlie Kirk, após o seu assassinato no ano passado. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, descreveu o momento como uma "guerra espiritual". O influenciador de direita Benny Johnson instou os membros do gabinete de Trump a "empunhar a espada para o terror dos homens maus na nossa nação". O ativista de extrema-direita Jack Posobiec disse às pessoas para "vestirem toda a armadura de Deus e enfrentarem o mal nos altos lugares e a guerra espiritual diante de nós", uma retórica que só tem continuado a escalar à medida que as eleições intercalares se aproximam.
Falando sobre os protestos anti-ICE em Minneapolis no início deste ano, o influente estratega da NAR Lance Wallnau disse que "os demónios estão a manifestar-se". Mais recentemente, o vice-governador do Indiana, Micah Beckwith, falando sobre as tentativas democratas de manipular os distritos eleitorais, disse que o partido estava a ser liderado por "os lacaios e vozes das trevas".
"Acordem, cristãos. Eles estão a vir para vocês", disse ele num programa chamado FlashPoint, uma espécie de noticiário noturno para o público dos apóstolos e profetas. "Não se pode acariciar um demónio. Sei que as pessoas gostam de dizer: 'Ei, demónios, fiquem aí. Apenas não nos magoem, e nós não vos magoamos.' Não funciona assim. O mal encontrar-vos-á. Até que homens fortes se levantem e façam alguma coisa e combatam o fogo com fogo, continuaremos a perder terreno, os nossos filhos serão deformados, a maldição estará sobre a terra."
À medida que a coligação MAGA se fraturou, alguns dos antigos apoiantes de Trump têm virado esta linguagem contra ele. Entre outros, Tucker Carlson questionou se Trump poderia ser o anticristo, enquanto os críticos de Carlson sugerem que o próprio Carlson pode estar sob influência demoníaca. O escritor conservador Rod Dreher, tentando explicar o crescente antissemitismo do seu antigo amigo, escreveu recentemente que se perguntava se haveria "alguma força demoníaca na floresta da Nova Inglaterra onde Tucker vive, e se ela tem estado a trabalhar na sua mente."
Dreher, amigo de Vance que se identifica como ortodoxo oriental, tem escrito muito sobre demónios ultimamente e disse-me que acredita que algo maior se passa na cultura americana. "Acho que todo o paradigma materialista pelo qual vivemos está a colapsar", disse. "O mundo está a tornar-se reencantado, quer as pessoas queiram quer não. É tudo muito real. As pessoas — a sobreclasse, a classe profissional — simplesmente não veem e não querem ver." Em livros e entrevistas, Dreher tem promovido histórias parabólicas sobre demónios que parecem concebidas para alcançar essas pessoas, ou talvez deslocar alguma janela de Overton espiritual. Uma envolve uma McMansion assombrada na Luisiana. Outra é sobre uma mulher rica de Nova Iorque cujo marido a colocou sob os cuidados de um exorcista. Outra ainda é sobre um advogado de Chicago aterrorizado por visitas extraterrestres que afinal eram demónios.
Num sentido mais imediato, invocar demónios pode ser um meio de desumanizar e deslegitimar inimigos políticos, o que tem sido frequentemente um precursor de guerra efetiva e violência política. "É uma forma muito útil de contornar o imperativo cristão de amar o teu inimigo", disse-me Matthew Taylor, académico visitante do Center on Faith and Justice da Universidade de Georgetown. "Na maior parte dos casos, esse é o mandamento inquestionável. Então, como é que se leva os cristãos a odiar os seus inimigos? Ou a odiá-los mesmo que os amem? Os demónios são fáceis de odiar. São objetos de ódio irremediáveis."
O que Misosky compreendeu quando disse ao xerife que sim, gostaria de inscrever a sua equipa na formação para atiradores ativos.
E assim, três anos após o início de uma campanha de guerra espiritual contra forças demoníacas em Maryville, ela e a sua equipa aprenderam quanto tempo demoraria a polícia a chegar caso ligasse para o 112, e o que fazer nesses minutos. Aprenderam a baixar-se e a proteger-se, e a correr para as saídas. O formador sugeriu que Misosky equipasse cada porta com algo para pulverizar nos olhos de um possível atirador. Comprou algumas latas de spray de vespas e colocou-as estrategicamente perto das duas entradas, atrás de várias estantes, junto à porta do espaço inferior e debaixo do balcão.
Lá em cima, mantinha o taco de basebol e uma arma debaixo da sua secretária, que ajustou de modo a poder ficar virada para a porta da frente e examinar cada pessoa que entrava. Sentada ali, por vezes surpreendia-se a pensar: "Sei que me matariam primeiro."
Do outro lado da rua, os Brewer sentiam-se cada vez mais triunfantes. Em 2023, a assembleia legislativa do Tennessee aprovou a primeira lei do país a proibir espetáculos de drag em espaços públicos ou onde menores os pudessem ver. Arizona, Kentucky, Oklahoma, Arkansas e Idaho, entre outros estados, aprovaram depois leis semelhantes às do Tennessee, que estão a ser contestadas em tribunal, mas que ainda assim lhes pareceram uma vitória para o Reino de Deus.
De acordo com a profecia que Andrea recebera do Colorado, o The Well entrou na fase final da guerra espiritual contra Lilith na primavera de 2024, o que envolveu 40 dias de oração contínua pedindo a Deus que libertasse Maryville. Os Brewer disseram que apareciam pessoas todos os dias e por vezes ficavam até à noite. "Apenas deixámos as portas abertas, e as pessoas vieram", disse Mike, descrevendo como acreditava que aquelas orações foram respondidas quando a assembleia legislativa aprovou uma resolução declarando julho daquele ano como um mês de oração e jejum para todo o estado.
Naquele verão, um representante republicano coordenou comícios de oração para todos os 95 condados do Tennessee, e Andrea foi convidada a falar num deles, em Maryville, juntamente com responsáveis estaduais e locais. Como os Brewer viam a situação, a lei, o governo e todo o estado estavam a alinhar-se para cumprir o mandato que Deus lhes dera.
O comício foi nos degraus do tribunal do condado. O dia estava um pouco nublado, e várias centenas de pessoas compareceram, incluindo muitos do The Well, alguns com bandeiras americanas nos bolsos, e muitos ajoelharam-se, depois inclinaram-se, pressionando a testa contra o betão quente. Quando chegou a vez de Andrea falar, sentiu-se cheia da autoridade de Deus. Ordenou que Lilith deixasse a região em nome de Jesus, momento em que, disse, ouviu sirenes a tocar. Quando olhou para o céu, disse, viu algo como nuvens a abrirem-se, e o que discerniu ser um "halo" de cores no céu.
"Algo mudou", disse. "Algo se transformou. Houve um momento em que Deus disse: 'Estou a romper esta situação.' E todos os presentes — sentiu-se."
E agora era um domingo de primavera no The Well, um como tantos outros domingos numa igreja onde a guerra espiritual nunca acaba realmente, e várias dezenas de pessoas entraram no santuário para ouvir o que Deus poderia querer que fizessem a seguir.
Um membro da congregação deu uma mensagem sobre o luto, mas principalmente houve oração enquanto a banda tocava, a bateria a bater, a crescer e a crescer, os holofotes âmbar a brilhar. Duas mulheres dançavam pela sala com bandeiras de oração, e outras jaziam no chão. Após 45 minutos disto, alguém declarou: "Ali mesmo, senti que rompemos a atmosfera", e outra pessoa disse: "Algo está a quebrar agora mesmo nesta sala, e vai quebrar através desta cidade, e vai quebrar através desta região", e outra pessoa disse: "Em nome de Jesus, fora todos os demónios!"
Durante as duas semanas que passei no The Well, as equipas de oração realizaram libertações quase todos os dias. Algumas envolviam recém-chegados, mas muitas eram uma espécie de manutenção espiritual para congregantes antigos que continuavam a voltar para mais — mais purificação, mais poder, mais desta versão de liberdade e propósito. As pessoas contaram-me que, durante as suas libertações, tinham visões de serpentes e soldados, portas e cores.
Sasha, a mulher que trabalhara para a Uber Eats, disse-me que lutara contra traumas de infância, sentimentos homossexuais e toxicodependência, e que estava na quinta ou sexta libertação para se livrar dessas e de outras coisas que não considerava de Deus. As sessões podiam ser emocionalmente exaustivas, e disse que a sua líder de libertação explicara que devia espaçá-las pela sua própria segurança: "Ela disse-me: 'Querida, passaste por tanta coisa que a tua estrutura não o poderia conter.'" Naquele ponto, Sasha já fora libertada de Python, Osíris, Apolo, Lilith e outros demónios, e suspeitava que ainda houvesse mais lá dentro.
Ao mesmo tempo, ela e outros disseram que as suas libertações não eram apenas sobre a sua própria purificação. A experiência também mudara a forma como viam o mundo e o seu papel nele. "É como ser um guerreiro — não há descanso", disse Sasha. "As coisas estão a mudar no reino espiritual, e as pessoas não estão preparadas para o que está para vir."
Ela e outros contaram-me todas as formas como agora viam Satanás a trabalhar no mundo. Era Jeffrey Epstein, e o tráfico de crianças, e túneis subterrâneos. Era o Irão, e muçulmanos cujo objetivo é "ultrapassar-nos a todos em número e dominar", nas palavras de Sasha. Era o Mês do Orgulho, e o transgenerismo. Eram igrejas que estavam a sufocar o Espírito Santo. Não era apenas a separação entre Igreja e Estado que era o problema no país, mas uma separação muito mais profunda da humanidade daquilo que entendiam ser o único Deus verdadeiro.
"Se mantivermos tudo separado, ninguém verá nunca o panorama geral", disse Sasha, e explicou como começa os seus dias.
"Acordo de manhã e unjo-me", começou. Disse que pede a Deus que abra os seus sentidos ao sobrenatural, porque por vezes consegue cheirar demónios. Coloca a mão na cabeça e pede a Deus que "silencie a voz do acusador em nome de Jesus" e que "silencie a voz dos meus próprios pensamentos em nome de Jesus". Pede para "ter o capacete da salvação e a própria mente de Cristo" e para "submeter todos os pensamentos". E depois sai para o mundo, uma guerreira espiritual.
Do outro lado da rua, Lisa Misosky começava o seu dia com o spray de vespas ainda junto às portas, e o taco de basebol e a arma ainda debaixo da secretária, e um exemplar gasto de Pigs in the Parlor numa estante.
Os Brewer, entretanto, decidiram que o seu trabalho em Maryville estava concluído. "Estabeleceu-se uma cabeça de praia", disse Mike. O The Well continuaria. Mas ele e Andrea estavam a avançar para a próxima frente, mudando-se para uma cidade a norte de Palm Beach, na Flórida, onde Mike estava a iniciar um ministério para formar empresários e outros líderes em "guerra do Reino". Andrea estava a desenvolver a narrativa do inferno no seu novo bairro, onde muitas ruas tinham nomes de deuses gregos.
"O The Well esteve em guerra durante quase 10 anos para libertar este território", disse Andrea pouco antes de deixarem Maryville. "Agora é uma estação mais calma. Mas virá outra vaga."
Este artigo foi publicado na edição impressa de agosto de 2026 com o título "The Demons of Maryville."
Nota: Este texto foi obtido, traduzido e formatado de forma automática pelo agente de IA Mimo Code com o modelo Mimo 2.5-Pro- Ultraspeed