Negadores da Eleição de 2020 Agora Estão no Comando na Geórgia

Banner
Hanna Rosin, 16 de Julho de 2026
Link para o Artigo original: [The Atlantic]
36 minutos


Resumo

Neste episódio do Radio Atlantic, Hanna Rosin viaja à Geórgia para investigar como negadores da eleição de 2020 ascenderam a cargos de poder no processo eleitoral do estado. O artigo, na forma de transcrição de podcast, revela que a mudança mais significativa desde 2020 é que pessoas que desconfiam dos resultados eleitorais ocupam agora posições oficiais com influência direta sobre listas de eleitores, máquinas de votação e contagens de voto.

Os Negadores de Eleição no Poder

O Estado Eleitoral da Geórgia

A Geórgia tornou-se um exemplo paradigmático de como os céticos eleitorais conquistaram posições de poder. O Conselho Eleitoral Estadual, com cinco membros nomeados, conta agora com uma maioria de três pessoas que questionam os resultados da eleição de 2020. Este conselho tem poderes amplamente abrangentes: sugere regras, investiga potenciais violações da lei eleitoral e garante que os funcionários eleitorais cumprem as suas funções.

Salleigh Grubbs: Da Activista Cibernética à Conselheira Eleitoral

Salleigh Grubbs, que trabalhava numa empresa de sistemas industriais, transformou-se numa activista eleitoral após ler sobre suposta fraude eleitoral no Facebook e ouvir o podcast War Room de Steve Bannon. Em Novembro de 2020, Grubbs e a sua amiga Susan Knox seguiram um camião de trituração que destruía resíduos rotineiros do escritório eleitoral (envelopes de privacidade de voto ausente), convencidas de que se tratava de destruição de boletins de voto. Esta narrativa acabou por chegar ao próprio Trump, que a mencionou na chamada telefónica com Brad Raffensperger.

Cinco anos depois, Grubbs permanece convencida de que houve fraude, apesar de múltiplas investigações oficiais — incluindo uma recontagem manual, uma recontagem por máquina e uma verificação de assinaturas — terem concluído que a eleição de 2020 na Geórgia foi legítima. A sua nomeação para o Conselho Eleitoral Estadual foi descrita como histórica, não por ser alguém que não acredita nos resultados, mas por ser a terceira pessoa com essas convicções num conselho de cinco.

O Legado de Brad Raffensperger

Brad Raffensperger, o secretário de estado que resistiu à pressão de Trump para "encontrar" 11.780 votos, viu a sua carreira política terminar na primária de 2026, obtendo apenas 14 por cento dos votos. A sua campanha para governador da Geórgia terminou numa festa descrita como desoladora — sem balões, sem confetes, com apenas velas que davam "a impressão de vigília". Raffensperger recebeu também ameaças de morte credíveis, incluindo um manifesto de quatro páginas com a sua imagem e a palavra boom escrita por cima.

Jason Frazier: O Investigador de Desafios de Eleitor

Jason Frazier, um engenheiro mecânico semi-reformado, gastou o seu próprio dinheiro — 485 dólares — para comprar a lista completa de eleitores da Geórgia e procedeu a mais de 15.000 desafios ao direito de voto. O movimento do qual faz parte apresentou mais de 100.000 desafios desde 2020, a grande maioria dos quais foi rejeitada.

O caso mais notável é o de John Egbert, um sargento da polícia que vive na mesma rua há mais de 13 anos e vota regularmente no mesmo local de votação. Egbert recebeu uma notificação a informar que o seu estatuto de eleitor válido estava a ser desafiado por Frazier, devido a um erro clerico — a sua rua tem um nome semelhante a uma estrada principal da cidade. Egbert teve que se apresentar numa audiência para defender o seu direito fundamental ao voto.

Frazier foi recentemente contratado como investigador a tempo parcial do Conselho Eleitoral Estadual, apesar de ter sido duas vezes recusado para o conselho eleitoral do condado de Fulton, onde um democrata o descreveu como tendo um "registo flagrante de supressão eleitoral".

A Obsessão pelos Códigos QR

Um dos temas centrais da desconfiança eleitoral é o uso de códigos QR nas máquinas de votação Dominion (agora denominada Liberty Vote). Os eleitores selecionam candidatos num ecrã tátil, e a máquina imprime um boletim com código QR, que é depois digitalizado como boletim oficial. Os céticos argumentam que os códigos QR não são verificáveis pelos eleitores e que as máquinas são facilmente hackeáveis.

Em 2024, a legislatura da Geórgia aprovou uma lei que exigia a eliminação dos códigos QR até Julho de 2026. No entanto, após disputas sobre o custo elevado da substituição e a impossibilidade de formar os trabalhadores eleitorais a tempo, o prazo foi adiado para 2028 — um sinal alarmante para os céticos.

O "Bunker Secreto"

Steve Bannon noticiou que os resultados eleitorais da Geórgia de 2026 seriam agregados numa "bunker de emergência secreto" a que os candidatos, o público e até o Conselho Eleitoral Estadual não teriam acesso. Na realidade, trata-se da Sala de Relatório da Noite Eleitoral, um espaço físico onde o secretário de estado recebe os totais oficiais de voto de todos os condados. Um juiz decidiu que o secretário de estado não era obrigado a permitir o acesso a Grubbs e outros membros do conselho.

Dados sobre Fraude Eleitoral

Em 2024, a Fundação Heritage (de orientação conservadora e autores do Projeto 2025) compilou uma lista abrangente de instâncias de fraude eleitoral ao longo de décadas. Apesar de numerosos exemplos, os números totais representam uma percentagem ínfima de eleitores. Em Arizona, por exemplo, a lista abrangente de 25 anos encontrou apenas 36 instâncias de boletins fraudulentos — 0,0000845 por cento — e nenhuma resultado eleitoral foi alterado.

A Administração Trump e a Frenesi Eleitoral

Na semana do episódio, a administração Trump entrou numa "frenesi eleitoral": enviou cartas a funcionários eleitorais ameaçando com persecução caso não-cidadãos votem; ameaçou cortar fundos federais de antiterrorismo se os estados não abandonassem os códigos QR; asignou 260 analistas do FBI para verificação de registos dos boletins de 2020 do condado de Fulton; eTrump anunciou um discurso especial sobre "investigações nas eleições dos EUA".

Conclusão

Hanna Rosin encerra o episódio sublinhando que as listas de eleitores não são um desafio de validação de dados — são listas de pessoas. Quando o grupo de Stephen Miller declara uma lista de eleitores, uma caixa de depósito ou uma máquina inválida, e um dia consegue declarar os resultados de eleição de um estado nulos e de nenhum efeito, são pessoas — cidadãos americanos que podem dormir num estacionamento ou num quarto suburbano — cujos votos estão a ser invalidados. Todos com exatamente o mesmo direito ao voto.

2026-07-16