IA como uma arma de destruição cognitiva em massa
Rui Carmo, 8 de Julho de 2026
Link para o artigo original: [Tao of Mac]
3 minutos
Uso IA todos os dias; é inevitável quando criamos ferramentas agênticas. Mas algo me tem irritado durante meses, e não tem a ver com programação: pessoas não-técnicas estão a usá-la para gerar demasiada palha. Não palha de código, mas palha empresarial.
Agendas de reunião com cinco parágrafos. Respostas de quatro páginas a um pedido de esclarecimento, porque assim recebo «todos os factos». Uma pergunta de uma linha aparece vestida de memorando formal com resumo, três tópicos de questões secundárias tangencialmente relacionadas e tudo o mais. Documentos que antes ocupavam uma página passam a ocupar seis, enchidos com contexto refeito que ninguém escreveu à mão e ninguém lê. As palavras tornaram-se um esforço mínimo, por isso as pessoas produzem mais delas — quer ainda signifiquem alguma coisa ou não.
A ilusão do tempo poupado
A imediatez provoca uma descarga de dopamina maior do que se espera. Escrevemos um prompt, recebemos seis parágrafos e duas tabelas em segundos, e parece eficiente. Quem envia acredita ter poupado vinte minutos e, da sua perspetiva, poupou mesmo: o que demorava vinte minutos agora leva dois.
Só que o tempo não desapareceu — mudou de sítio e multiplicou-se. Cada destinatário tem agora de navegar pelo enchimento, perceber que frase é realmente importante e reconstruir mentalmente a mensagem de uma linha que devia ter sido enviada em primeiro lugar. Quem envia gasta dois minutos; dez pessoas a jusante perdem quinze cada uma — se é que leem o texto todo.
Nem a leitura rápida ajuda
As pessoas na área da tecnologia adoram IA porque, convenhamos, poucas sabem escrever; o programador médio não é grande comunicador. E se passamos muito tempo a comunicar, a ilusão acima rapidamente nos prende.
A IA nas mãos de quem não a sabe usar eficazmente limita-se a despejar carga cognitiva sobre todos os outros. Sou um leitor razoavelmente rápido (parte da minha composição neurológica ligeiramente atípica), e está a dar-me em doido que uma mudança de contexto que antes era instantânea agora implique vasculhar páginas de pseudo-factos vagamente empacotados.
Irónico: numa das últimas vezes que respondi a um e-mail verborreico — nos meus habituais parágrafos curtos e tópicos —, apontei que os dados fornecidos à IA que ajudou a criar esse e-mail estavam ligeiramente errados. A resposta foi desconcertante: as pessoas confundiram o meu vocabulário de pendor britânico… com uma resposta gerada por IA. Porque, sim, uso travessões.
Produção não é produtividade
O pior é que a gestão geralmente não distingue a diferença, e cada vez menos tenta. Mais e-mails, documentos mais longos, respostas mais rápidas — tudo parece produtividade, e a produção é fácil de quantificar de uma forma que a qualidade nunca é. Assim, quem envia dez relatórios inflacionados parece mais ocupado do que quem envia um único parágrafo conciso que realmente resolve a questão.
Isto acontece de cima a baixo no organograma, e resume-se a uma confusão básica sobre para que serve a IA. O objetivo é poupar esforço — o mesmo resultado com menos, ou um melhor resultado pelo mesmo. Em vez disso, as pessoas usam-na para inflacionar o mesmo resultado e fazer com que pareça maior. A liderança vê o volume aumentar e interpreta-o como um ganho. A única coisa que realmente aconteceu foi o trabalho ter ficado mais ruidoso.
E dada a pressão constante para «vender», para ser notado, para «alcançar mais», estamos a recompensar o volume e a chamar-lhe trabalho, porque os piores KPI são os mais fáceis de medir: quantidade de e-mails, extensão dos documentos, rapidez de resposta. Tal como medir o número de PRs submetidos, ou linhas de código.
Ninguém está a medir a carga cognitiva que está a ser despejada sobre o destinatário, se a mensagem realmente chegou ao destino, ou quantas horas dos recetores foram desperdiçadas. Portanto, no papel, a sobrecarga não existe — acumula-se, extra-oficialmente, enquanto algum painel de gestão se mantém verde — «a linha sobe», não é verdade?
Mede (ao menos uma vez, raios) e corta mais do que duas vezes
Blaise Pascal disse uma vez: «Se tivesse tido mais tempo, teria escrito uma carta mais curta.» Ser simultaneamente factual e conciso é a opção cara, não a preguiçosa. Reduzir um documento para metade significa compreendê-lo bem o suficiente para saber o que pode ser cortado. Reduzir um parágrafo ao par de frases realmente importantes requer discernimento, algumas revisões e, sim, tempo. E (isto é o que mais me irrita) ainda não dominámos a arte da apresentação concisa — pelo contrário, agora armámo-la até… um grau nuclear.
E já que falei em apresentações: o gosto é uma das principais vítimas da IA, tanto visual como textual. Detesto o jargão corporativo reluzente agora disponível como munição de e-mail para toda a gente — mas isso merece um artigo próprio. E, tal como Pascal, começo a achar que não gastei tempo suficiente a reduzir este…