Há 70 anos eram desenhadas as fundações da Inteligência Artificial
Actualizado a 13 de julho de 2026, 12:46
Arquivo da Família Minsky
Uma das grandes histórias – ou um dos grandes mitos, se preferirem – da Idade Média é protagonizada por um homem de fé e uma cabeça falante. Conta-se que um clérigo francês, de seu nome Gerbert de Aurillac, se deslocou, algures no século XII, à cidade de Sevilha com a ambição de aprender astronomia.
É verdade que a cidade andaluza era um dos esplendores do mundo muçulmano, numa altura em que a ciência islâmica estava bem mais avançada do que a de qualquer outro ponto na Europa. E Aurillac, apesar do trabalho religioso, era um curioso pelas ciências, quaisquer que fossem.
Reza a lenda que conhecimento absorvido durante a sua visita serviu-lhe para construir uma cabeça de metal que, dizia-se, respondia a perguntas simples com um “sim” ou um “não” e previa até o futuro. A notoriedade desta lendária máquina ficou ligada ao facto de Aurillac se ter tornado papa, com o nome de Silvestre II. Nos séculos seguintes, a tradição que o associava a essa invenção alimentou histórias envolvendo outros sábios medievais, como Roger Bacon, São Tomás de Aquino e Arnaldo Vilanova.
A Oficina de Dartmouth
A razão pela qual trazemos esta história aqui é simples: apesar de pensarmos que a Inteligência Artificial é um conceito contemporâneo,a construção de um aparelho onde depositamos qualidades tão humanas quanto a inteligência é até anterior à Idade Média. Lemos, por exemplo, sobre o mecanismo de Antikytera e chegamos a essa conclusão. O que é a cabeça de Silvestre II senão o fantasma humano utilizando engrenagens para trabalhar ao nosso serviço?
Celebramos, 70 anos depois , o momento em que a ideia de Inteligência Artificial abandonou o baú das lendas e histórias apócrifas,fixando-se no mundo científico como um campo de estudo. Falamos-lhe da célebre conferência – ou oficina (workshop , no original) – que lançou as bases para a a Inteligência Artificial. Teve uma duração deoito semanas , ocorreu noDartmouth College, no New Hampshire e foi organizada por quatro indivíduos: Claude Shannon, Nathaniel Rochester, John McCarthy e Marvin Minsky.
O quarteto vinha de campos de estudo distintos. McCarthy e Minsky eram matemáticos e Shannon e Rochester trabalhavam em áreas da recém-criada ciência da informática. Mas todos estavam interessados nopotencial dos computadores em aprender as capacidades cognitivas humanas. No paper que publicaram em defesa deste projecto, alegavam que, em teoria, nada havia no processo de raciocínio e lógica humanas que não pudesse ser simulado por uma máquina. O objectivo era lançar as bases científicas para o que chamaram “Inteligência Artificial”, ou seja, “a ciência e criação de máquinas inteligentes.” A proposta foi feita à Rockfeller Foundation , um think tank financiado pela fortuna da famosa família norte-americana.
Não era a primeira vez que a fundação se aventurara por este mundo das ideias. Em 1951, patrocinara em Parisum encontroacerca da cibernética, uma área científica multidisciplinar focada na programação de respostas de máquinas como consequência de ordens dadas por uma entidade exterior – neste caso, um ser humano. Por outras palavras, associou-se à base de toda a mecânica que faz funcionar a Inteligência Artificial. O encontro convocou todos os grandes nomes que se debruçavam, na capital francesa, sobre a nascente importância do computador , com a excepção de dois notáveis: Alan Turing e John von Neumann. O primeiro por ser, nessa altura, persona non grata na comunidade científica inglesa por infames razões que nada deviam à ciência; o segundo porque não quis ir. Mas apesar da troca de ideias, os resultados foram desapontantes.
Preocupações, previsões e optimismo
Os organizadores do evento de 1956 preferiram um retiro mais íntimo e menos ambicioso. Turing e von Neumann eram as suas grandes inspirações e, ao invés de centrar a discussão no intercâmbio de conhecimentos entre matemáticos e construtores de sistemas, a oficina pretendiadiscutir outras questões relacionadas com a possibilidade de máquinas pensantes. Foram, assim, convidados físicos, psicólogos e neurologistas, pessoas que permitissem não só analisar as dificuldades da criação de tais sistemas, mas também perguntar o que fazia da inteligência humana... humana. Durante dois meses, convidados e outros curiosos puderam comparecer nas várias palestras. Alguns ficavam apenas por alguns dias, outros estiveram em permanência no encontro. A lógica informal era esta, a da partilha de conhecimentos, divulgando esta ideia de uma Inteligência radicada na mecânica.
Apesar da informalidade,as consequências deste evento foram vincadas. Em primeiro lugar, a ideia de que um encontro simples de intercâmbio de ideias podia fazer progredir a ciência, sem necessidade de sigilos, uma partilha aberta de conhecimento. Em segundo lugar, abriu caminho nalgumas das grandes instituições universitárias dos EUA – o MIT, Harvard e Carnegie Melon – para a criação de departamentos dedicados ao estudo e desenvolvimento da Inteligência Artificial. Alguns dos cientistas presentes, como John MacCarthy e Marvin Minsky, viriam a fazer seminais contribuições para este campo, enquanto trabalhavam para uma dessas instituições de investigação e ensino. Em terceiro, ao discutir os vários campos de aplicação deste novo campo do conhecimento, o projecto incentivou àcriação de empresas e parcerias privadas que contribuíram em definitivo para o seu desenvolvimento.
Ontem e hoje: o medo misturado com a esperança
Claro que a conferência de Dartmouth foi importante também para discutir muitas das nossas preocupações actuais sobre o impacto destas tecnologias no nosso quotidiano. O impacto de máquinas com um modelo de consciência nas relações humanas, por exemplo; ou a capacidade de a Inteligência Artificial contribuir para a educação, a medicina ou transportes.
Mais do que conversar apenas sobre as necessidades de inovação tecnológica, os participantes consideraram as implicações éticas da presença de Inteligência Artificial nestes campos. Apesar de, na altura, até porque não era algo de acesso generalizado, as preocupações com a privacidade individual não terem sido discutidas, o cuidado com o uso responsável deste conceito e a sua aplicação foram um tema de debate. Tal como hoje, não se chegou a qualquer conclusão que satisfaça um tema complexo.
No entanto, por muito brilhantes que fossem as mentes reunidas no Darmouth College, e tal como acontece muitas vezes na história do progresso científico, um conjunto de cientistas juntaram-se numa sala para discutir potencialidades das quais nem eles mesmos conseguiam antecipar as implicações totais para o ser humano. Das notas de todos os encontros realizados, sobressai o optimismo, com alguma cautela ainda assim aberta à sensação de que tudo correria pelo melhor. Mas tal como a cabeça de metal de Silvestre II levou a lendas sobre as suas capacidades como feiticeiro e pactos assinados com o Diabo, também hoje, e para já, a Inteligência Artificial é menos uma solução para problemas universais e mais um mistério sobre respostas e acima de tudo perguntas colocadas a um fantasma por trás de uma interface.