Como Biden Encorajou a Agressão de Israel em Gaza — e no Irão

David D. Kirkpatrick, 20 de Julho de 2026
Link para o Artigo original: [The New Yorker]
36 minutos
Em março de 2024, Mirjana Spoljaric, presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha, enviou uma carta confidencial ao presidente Joe Biden alertando que a conduta de Israel nas hostilidades era "incompatível" com o direito internacional humanitário. A carta, obtida por David D. Kirkpatrick junto a um antigo funcionário dos EUA, denunciava o bloqueio total de acesso aos detidos palestinianos, a obstrução do acesso humanitário e o número crescente de vítimas civis.
O "perigo moral" da política dos EUA
Embora Biden e os seus assessores tivessem alertado Netanyahu em múltiplas ocasiões para não provocar o Irão, a postura pública de apoio incondicional dos EUA criou o que Philip Gordon, assessor de segurança nacional da vice-presidente Kamala Harris, descreveu como um "perigo moral". Israel avançou repetidamente com operações unilaterais — assassinatos de figuras-chave em Damasco, Damasco diplomática, Teerão e Líbano — sem aviso prévio significativo aos EUA. A cada vez que uma dessas ações deflagrava um conflito, os EUA sentiam-se compelidos a defender Israel.
Lloyd Austin, secretário da Defesa, terá comparado Netanyahu a um jogador que "joga com dinheiro da casa", já que a proteção americana, paradoxalmente, encorajava o temerismo israelita.
Crimes de guerra e a regra dos "vinte civis"
No dia do massacre do Hamas, as IDF revisaram formalmente as suas "regras de engajamento" para permitir que oficiais de nível médio autorizassem ataques com um risco de até vinte mortes civis para abater um combatente simples do Hamas — o triplo do limite anterior. Segundo o sítio noticioso +972, nos primeiros dias de campanha aérea, Israel alvejou deliberadamente estruturas civis como torres de escritórios, prédios residenciais, ministérios, universidades e bancos, numa tentativa de "terrorizar a população" para forçar o Hamas a render-se.
Bloqueio de ajuda humanitária
Dois dias após 7 de outubro, Israel fechou todas as fronteiras. Antes da guerra, Gaza importava cerca de quinhentos camiões diários de víveres. Netanyahu só cedeu quando Blinken ameaçou cancelar uma visita planeada por Biden — e mesmo assim pediu que a concessão ficasse em segredo, temendo reação interna por não famintizar civis palestinianos.
Fracasso da pressão diplomática
Os EUA debateram internamente a retenção de armas, incluindo bombas de dois mil e quinhentas libras. Contudo, a suspensão foi limitada a um único envio de bombas de dois mil libras, enquanto as de quinhentas foram enviadas separadamente. O Memorando Nacional de Segurança 20, aprovado em fevereiro de 2024, exigia que Blinken apresentasse ao Congresso um relatório sobre a conformidade de Israel. O documento, tornado público em maio, foi descrito pelo senador Chris Van Hollen como "uma completa branqueação".
Jake Sullivan, ex-conselheiro de segurança nacional, admitiu: "Deveríamos ter exercido mais pressão sobre Israel para adotar uma abordagem diferente". Blinken afirmou: "Como não ter arrependimentos, dado o tributo que isto cobrou de homens, mulheres e crianças inocentes?"
Consequências a longo prazo
Com mais de setenta mil palestinianos mortos, a maior parte da população deslocada e o Hamas a recrutar novos combatentes durante o conflito, o conflito prejudicou o objetivo estratégico americano de promover uma coexistência pacífica entre um Estado judeu democrático e um Estado palestiniano. O assentamento na Cisjordânia acelerou-se drasticamente, a simpatia americana histórica pelo Estado de Israel deteriorou-se e o debate em torno do apoio militar americano dividiu profundamente o Partido Democrata.
Jon Finer, vice-conselheiro de segurança nacional, concluiu que o cerne do conflito em Gaza foi que, tanto para o Hamas como para Israel, "o dano civil não foi um efeito colateral, mas parte da estratégia".