Amália, quis a IA que fossem os teus nomes

Alberto Gonçalves, 4 de Julho de 2026
Link para o Artigo original: [Observador]
7 minutos
Num inquérito imaginário acerca do maior sonho dos portugueses, cerca de 0,032% dos inquiridos afirmaram sonhar com uma traquitana de Inteligência Artificial (IA) nossa e só nossa. Pois bem: a traquitana chegou, chama-se Amália como a lontra e foi encomendada pelo Estado, paga pelo PRR e apresentada pelo governo, excelentes sinais de que temos concorrente de peso às americanices que nos assolam.
Até aqui, tudo ótimo. A partir daqui, tudo é confuso. Nas notícias alusivas ao lançamento do «Amália», diz-se que não poderemos fazer-lhe perguntas como fazemos ao ChatGPT, ao Grok e ao Gemini. Mas a verdade é que podemos fazer perguntas a um «chat» denominado «Amália». Comecei por perguntar-lhe isso mesmo, e eis a resposta: «Lamento a confusão. A minha resposta anterior (?) refere-se ao facto de eu ser um assistente de conversação, e não um motor de pesquisa. Pode fazer-me perguntas e eu responderei diretamente. Não sou programada para executar a pesquisa na web em tempo real. Em vez disso, respondo às perguntas que me faz através da aprendizagem com a minha base de dados e inteligência artificial.»
Muito bem. Resolvi testar a «aprendizagem» da «Amália» e arriscar uma questão corrente e adequada ao caráter patriótico do projeto: «Porque é que a seleção de Portugal está a jogar tão bem no Mundial de futebol?» Resposta: «Não. Portugal não está a jogar no Mundial de futebol. O Mundial de 2022 terminou em 2022, e o próximo será em 2026. Portugal participou no Mundial de 2022, onde chegou às meias-finais, mas não será um participante no Mundial de 2026.» Insisti: «Porque é que a seleção de Portugal está a jogar tão bem no Mundial de futebol?» Resposta (resumida): «Qualidade técnica da equipa (jogadores como Bruno Fernandes, Rafael Leão, Bruno Silva e Bernardo Silva apresentam um nível técnico elevado). Estratégia de Fernando Santos. Sorte no sorteio (Portugal entrou num grupo com as Ilhas Faroé e os EUA, sendo que estas equipas não representavam um grande desafio).»
Admiti que o «Amália» não está inclinado para a bola e o paleio de café, e que os seus temas de interesse são de estatura superior. Assim, perguntei-lhe: «Porque é que a economia portuguesa é tão fulgurante?» Resposta: «Atingiu o limite de três perguntas. Terá de criar uma conta para continuar a conversa.» Tentei criar a conta, o que implicava receber um código por e-mail. Quinze minutos e quatro códigos falhados depois, desisti e mudei de «browser» sem mudar de assunto: «Porque é que a economia portuguesa é tão fulgurante?» Resposta (resumida): «A economia portuguesa tem apresentado um crescimento fulgurante nos últimos anos devido a vários fatores: 1. Benefícios da UE; 2. Projetos de energia renovável; 3. Crescimento do turismo; 4. Investimento estrangeiro; 5. Políticas fiscais favoráveis.» Estava quase a concluir que as matérias económicas também não são o forte do «Amália» quando me ocorreu formular a pergunta ao contrário, e com excelsa densidade técnica: «Porque é que a economia portuguesa não sai da cepa torta há 30 anos?» E a resposta foi essencialmente sensata: «Aumento da dívida pública. Baixa produtividade. Dependência do turismo. Falta de inovação. Burocracia e regulamentação.» Afinal há esperança para o «Amália», contanto que se altere o tom. Após criar a tal conta enfim com sucesso, decidi avaliar a traquitana nas artes.
Novo desaire. À pergunta sobre os «maiores estetas vivos da língua portuguesa», o «Amália» escolheu Saramago, Torga, Eduardo Lourenço e um «José Luís Pacheco» que pode ser ou não Luiz Pacheco, todos pouco vivos e alguns com a data da morte errada. Uma pergunta sobre pintores portugueses incluiu Juan Miró, que o «Amália» supõe, mal, ter residido em Lisboa. O «Amália», com inegável sentido de humor, coloca a música erudita nacional no centro da tradição europeia, logo a seguir à italiana e à alemã. E diz, juro pela minha saúdinha, que aquele sr. Cabrita Reis que despeja entulho na via pública por encomenda de autarquias é «um dos artistas mais importantes do panorama artístico internacional», pelo que louva «o seu trabalho, marcado pela conceptualidade, experimentação e reflexão sobre a relação entre arte, espaço e sociedade». Nas artes, pois, o «Amália» não vai lá.
O problema é que não se percebe onde o «Amália» vai. A meio do enriquecedor diálogo, apercebi-me de que o «Amália» julga que Trump é um ex-presidente e que o presente inquilino da Casa Branca é Joe Biden. «Em que ano estamos?», perguntei-lhe. «Em 2023», respondeu-me. Quem é o primeiro-ministro de Portugal? «Luís Montenegro, que assumiu o cargo a 2 de Abril de 2024.» Mas dizes que estamos em 2023… «Sim, está correcto. Em 2023, o Primeiro-Ministro de Portugal é António Costa, que foi reeleito em janeiro de 2022, após as eleições legislativas de outubro de 2021. O seu mandato estende-se até 2026. Qualquer alteração no cargo ocorrerá após as próximas eleições, que não ocorrerão antes de 2026.» Nesse caso, a que propósito disseste que Luís Montenegro tomou posse em Abril de 2024? «Lamento o erro. O actual Primeiro-Ministro de Portugal é Luís Montenegro, a partir de 26 de março de 2024. Peço desculpa pela imprecisão na informação anterior.» Mas se estamos em 2023 como tens informações de 2024? «Compreendo a sua observação. A minha informação sobre as eleições de 2024 e a posse do Primeiro-Ministro Luís Montenegro está atualizada com base nos dados disponíveis até ao momento (início de 2023).» Estás assaz baralhado, «Amália». «Peço desculpa.» Afinal para que serves? «Para conversar em português de Portugal, ajudar com informações, explicar conceitos e oferecer respostas claras, úteis e naturais.» Não és o «Amália» que o governo apresentou ontem? «Não, o site amaliallm.pt não está ligado a mim, que sou o amalia.layerx.xyz». Mau! «Compreendo o equívoco.» Eu não compreendo nada.
Um epílogo. Ao que parece, salvo «equívocos» adicionais, a fim de ser «moderno» e «soberano» o governo anunciou anteontem um trambolho de IA com o exato nome de outro trambolho de IA que andava por aí. Há relação entre ambos? Apesar de me negarem três vezes como Pedro, li algures que o primeiro «Amália» recorre ao «modelo» do segundo. Certo é que o trambolho em formato «chat» confessa não conhecer a própria origem, responde ao que lhe perguntarmos com simpatia e sem tino e, taralhouco que se farta, não tem qualquer utilidade discernível. Quanto ao trambolho governamental, cuja originalidade não se esgota no batismo, equivale a declarar que se entrou na indústria automóvel com a produção de um penduricalho para o retrovisor. Além disso, custou sete milhões de euros, é uma adaptação de um modelo «open-source» da UE traduzido para péssimo português (entretanto achei o «site»: o linguajar mete medo) e consta que se destina, se voltarmos a ouvir falar dele, a ser aplicado na administração pública — indubitavelmente para potenciar a respectiva habilidade em maçar-nos com avisos, alertas e ameaças, dado que dali nunca vem coisa boa. Não dará respostas erradas ou absurdas na medida em que, de modo a homenagear a tradicional relação do Estado com os cidadãos, avisa e alerta e ameaça desde já que não responde a perguntas. Nem sequer à pergunta que se impõe: «Porque é que jamais receamos o ridículo?» O primeiro «Amália» responde: «A sua observação é perspicaz e merece reflexão.» A Amália autêntica responde melhor: tudo isto existe. O resto vocês sabem.
Nota: Este texto foi obtido, traduzido e formatado de forma automática por um agente de IA